terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O primeiro de muitos (todos os) Natais

Para o Peter Pan a véspera de Natal acabou por ser um dia quase igual aos outros, não fosse o jantar em casa do meu sogro e ter adormecido numa cama que não era a dele. Para nós, apesar de ter sido uma noite muito (demasiado) mais calma do que o costume (eu tenho de dizer isto, a ex-mulher do meu sogro era muito mais divertida e alegre do que a "actual", e o Natal com a família dela era uma animação e ontem tive saudades dos últimos anos passados juntos) teve uma doçura especial, um aroma a sonho concretizado.
Esta manhã, os três em pijama, abrimos as prendas (é impressionante, sermos pais é sinónimo de deixarmos de receber presentes, agora é tudo para o fedelho!) perante o olhar espantado do nosso filho pequenino, tão maravilhado com as cores dos papeis de embrulho como com as cores dos brinquedos e roupas com que a família e os amigos quiseram mimá-lo. E ali, sentados no tapete da sala a desembrulhar pacotes e sacos, recordei com carinho os Natais da minha infância, quando a minha mãe escondia os presentes e só os punha debaixo da árvore depois de irmos dormir, e de como eu e o meu irmão acordávamos quase de madrugada e íamos aos saltos e aos gritos acordar os nossos pais para nos deixarem abrir as prendas.
São memórias destas que quero deixar a Peter Pan. Rituais simbólicos que sejam mágicos enquanto ele quiser acreditar neles. 




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Doce Natal

Pode não haver troca de prendas nem fritos tradicionais, mas não pode faltar o açucar...


(Fico muito feliz com o sucesso da R., que teve a coragem de dar um rumo diferente à vida e começar o seu próprio negócio numa altura em que a alegria e a esperança foram substituídas pela - maldita - palavra "crise").

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Momento (CXCIII)

Adormecermos no sofá, nos braços um do outro. Como antes. Antes de a nossa vida ter mudado para sempre (um chavão tão grande quanto verdadeiro). Já não somos só os dois, mas não quero esquecer-me de nós os dois. E sabe tão bem sentir o conforto desta presença que não precisa de palavras, o calor deste abraço sempre ansiado e tão querido. Já não somos só os dois, somos uma família agora, mas o amor maior que encheu os nossos corações só reforçou este amor constante feito de certezas cimentadas ao longo dos anos nos pequenos gestos do dia a dia. Como adormecer no sofá, nos braços um do outro.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Agradecer aos céus

Acordo primeiro que o Peter Pan (uma raridade) e aproveito para ir tomar logo um banho rápido. Assim que ouve os meus passos solta o primeiro gritinho do dia, para chamar a atenção. O pai vai buscá-lo para o ritual matinal que é só deles. Quando lhe vou dar um beijo de bom dia já ele esperneia e braceja por todos os lados. "Deves estar com fome filho, comeste ás... espera lá... esta noite não acordaste para comer!!!!!".
(No dia em que completou 5 meses, o meu filho concedeu-me um dos desejos mais ansiados. Uma noite completa de sono reparador. A medicina concedeu-me o outro. A minha mãe já teve alta.)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mimar (tanto)

Peter Pan durante o dia só fazia sestas de 20 minutos. Nas últimas duas semanas (desde que me mentalizei que não tarda nada vou trabalhar e o meu tempo e atenção vão deixar de lhe ser exclusivos) tem dormido sestas de hora e meia ou duas horas seguidas. Ao colo. Os olhos redondos e azuis a fitar-me enquanto me faz festinhas na cara ou enfia os dedos na minha boca para eu lhe dar beijos. Até adormecer. Aninhado em mim. Ou eu aninhada nele. Porque também durmo. Porque o calor do corpo dele me conforta. Porque sei que ele nunca mais será assim tão pequenino como é agora. E não quero saber se estou a habituá-lo mal (eu sei que estou, assim que tento deitá-lo, o sacaninha acorda), a ama depois que o aguente. Só quero aproveitar todos estes pedacinhos de vida fácil e doce enquanto posso. Enquanto não passam a ser luxos de fim-de-semana.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Momento (CXCII)

Ouvi-lo a cantar para o filho. "O sapo não lava o pé. Não lava poque não qué..." Uma imagem que muitas pessoas que o conhecem não imaginariam possível. Aquele homem de barba cerrada e ar duro transformou-se num pai babado e derretido de tanto mimo.  E eu comovo-me (ainda e sempre) quando os vejo juntos.

(Mais admirável ainda, a roupa dele ganha raízes na cadeira do quarto, mas assim que chega da rua com o Peter Pan, vai arrumar-lhe o casaco no armário...)

sábado, 15 de dezembro de 2012

(Aprender a) Comer

A primeira sopa de Peter Pan. A coisa começou bem, até ele perceber que a (tão adorada) mama não vinha. Então chateou-se. Muito. Berreiro de meia-noite conjugado com brrrrrruuuuuuus que espalhavam salpicos de sopa num raio de 30 metros. Mas banana comeu-a toda. E mais houvesse.

(O meu pequenino está cada vez menos pequenino. É uma delícia e um assombro vê-lo crescer assim...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Partilhar o espaço

O nosso espaço já não é só nosso. Na nossa casa habitam agora novas criaturas. Macias e cheias de cores (e quase todas elas regularmente lambidas por Peter Pan). Por enquanto ainda têm um território delimitado, ou a espreguiçadeira, ou o ovo, ou o cesto no final do dia, quando já não são precisas. Mas estou a imaginá-las enfiadas em todos os buracos e cantos a que a miniatura de gente consiga chegar muito (demasiado) em breve.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Nascer para sofrer

Este é o Tobias. O primeiro "amigo" do meu filho. O Tobias toma banho todos os dias. Peter Pan encarrega-se disso com afinco, lambe-o todo como se fosse um gato. Agora que a saga dos dentes já está a começar, para além de ser lambido, o Tobias também é "mordido" compulsivamente. É ver a fúria com que Peter Pan enfia na boca os braços, as pernas, a cabeça ou qualquer parte do boneco que apanhe mais a jeito, para saber que ele vai ter um triste fim...



domingo, 9 de dezembro de 2012

Encher-me de orgulho

Hoje, pela primeira vez, Peter Pan choramingou quando saiu do meu colo. Hoje, pela primeira vez, estendeu as mãos e esticou-se todo para a frente a reclamar os meus braços.

(É possível que mais tarde não vá achar tanta piada a este gesto, quando tiver de (ou quiser) passá-lo para o colo de outra pessoa e ele não deixar. Mas hoje, o meu coração de mãe babada encheu-se de orgulho).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Momento (CXCI)

Voltar a conseguir ver um filme até ao fim sem adormecer...

"Touch the Sky"
(Brave OST)





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Momentos (CXC)

As gargalhadas de Peter Pan quando lhe beijo o pescoço. O palrar incessante. As nossas brincadeiras em frente ao espelho, com ele a olhar para o meu reflexo, depois a olhar directamente para a minha cara, e de novo para o meu reflexo no espelho, numa descoberta sem fim e admirável. Vê-lo a fitar-me com aqueles olhos azuis enormes, a desviar o olhar, e a voltar  a cara devagarinho para confirmar se eu ainda lá estou, de onde me lança um sorriso de boca escancarada e desdentada. Rir-me com o espernear desenfreado de quem tem braços e pernas com vida própria. O corpo quente no meu colo, aos saltos de satisfação enquanto cusca tudo à sua volta, olhos arregalados e boca aberta de espanto. E a pele macia das mãos rechonchudas que beijo devagarinho enquanto ele mama.

(Sim, agora só falo do meu filho, meu amor pequenino, meu coração. Era isto ou a preocupação com a minha mãe internada há uma semana e meia. Com uma infecção urinária. E uma infecção respiratória. E um esgotamento nervoso. Tudo ao mesmo tempo. Tudo sem reacção eficaz aos medicamentos. Por isso sim, falo do meu filho, a minha maior alegria por estes dias, a mais profunda razão para continuar a sorrir.)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Momento (CLXXXIX)

Uma taça cheia de gelado. Strawberry Cheesecake. Chocolat Brownie. Cookies and Caramel. Com bolachas oreo por cima. Com a Paula aqui ao lado. E o meu filho a dormir sereno aqui tão perto.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Momento (CLXXXVIII)

O telemóvel toca. Do outro lado ouço a voz da minha afilhada adorada e em fundo a minha cunhada "olha que ela está a ligar para a tua irmã". A pequena L. de quase dois anos pegou no telemóvel do pai e ligou para o último número que ele tinha marcado.
"Madinha, o Pêdo?"
(E assim ganhei a noite, ao ouvir aquela voz doce que não queria parar de falar, num discurso atabalhoado que eu não percebi, mas que me deixou cheia de orgulho... e saudades).

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Vê-lo crescer

Consulta dos 4 meses. Peter Pan a dormir. Tiro-o do carrinho com cuidado, encho-o de beijos para o acordar, vejo-o espreguiçar-se e fazer boquinhas. A enfermeira C. admira-o "está tão grande!". Peter Pan tem a cara redonda e as bochechas rosadas e cheias (de tanto mimo). Tem umas refegas deliciosas nas pernas e um sorriso simpático para qualquer pessoa que lhe dê conversa. Pela primeira vez não chora quando o ponho na balança para ser pesado. 5.300 kgs e 59 cm (está tão crescido o meu filho...). Mantém-se no percentil mais baixo (e como nos disse o pediatra "nem sei como é que vocês fizeram isto...") mas está a desenvolver de forma constante e é saudável, e é (só) o que importa. Leva duas vacinas, uma em cada perna, e após um chorinho de queixume, põe-se a correr o consultório com o olhar cuscuvilheiro como se nada se tivesse passado (é tão forte o meu filho...). É o que vale ter memória de peixe. A doutora M. observa-o enquanto ele se mete com ela, a palrar desajeitadamente para chamar a atenção. "A tua mãe deve passar o dia a falar contigo" (tem toda a razão...). Descansa-me quando lhe falo sobre umas borbulhinhas nas virilhas que apareceram recentemente "é bom sinal, a pele das pregas está lubrificada para não fazer fricção. Sabe que nós conseguimos perceber se a pele de um bebé está a ser bem tratada, e digo-lhe já que ele está óptimo" (é tão acarinhado o meu filho...).

domingo, 18 de novembro de 2012

O amor mais puro


Peter Pan dorme sozinho no quarto dele desde os dois meses e uma semana. Toma banho, mama e adormece sereno e sem refilar entre as 8 e as 8 e meia da noite. Acordava para mamar à meia noite, às 3 e às 6 da manhã. Desde a semana passada só tem acordado à meia noite (ou 1) e às 4. Às 7 e meia começamos a ouvir os miados dele. Passa os 20 minutos seguintes a "falar" sozinho, ou a choramingar quando se chateia de estar às escuras. O pai vai levantá-lo e vê-lhe o primeiro sorriso rasgado do dia. Abre as persianas da casa toda com ele ao colo, e vê-lhe os olhos a piscar com tanta luz. Trá-lo para a nossa cama e é a minha vez de receber um sorriso enorme. Brinca com ele uns minutos e muda-lhe a fralda antes de ir tomar banho. É o ritual deles, todas as manhãs. O nosso dia, depois de o L. ir trabalhar, passa entre as horas de amamentar e as sestas de 20 minutos, os peluches coloridos que só servem para enfiar na boca (ou as mãos, ou uma fralda de pano, ou qualquer coisa que apanhe a jeito), as (minhas) palhaçadas para o ver rir, as longas conversas que ele ouve muito atento e responde com grunhidos ou gritinhos, enquanto esbraceja e esperneia freneticamente, uns minutos de BabyTV de vez em quando e muita música clássica.

Peter Pan aprendeu a fazer bruuuu e agora é um festival de cuspo a sair daquela boca (só ontem foram para a máquina de lavar 14 babetes...). Nós tentamos não rir mas ele acha tanta piada que é impossível fazermos cara feia (e também não ía servir de nada). Odeia frio e chora desalmadamente se a água do banho não está quase a escaldar. Adora a roca com o urso azul que a S. e o Z. lhe deram, e o peluche do Nemo que o padrinho lhe ofereceu (mas só servem para enfiar na boca, claro).  Refila sempre que o pomos no ovo e o prendemos com os cintos, mas assim que sai à porta de casa cala-se, por maior que fosse a choradeira que estivesse a fazer. E pode estar a dormir há dez minutos ou há três horas fora de casa, assim que entramos e pousamos o ovo na sala, ele acorda. É um castigo dar-lhe água, torce o nariz porque está fria, e só aceita a chucha para adormecer, mas à mínima oportunidade cospe-a para longe. Durante o dia só adormece ao colo, e é preciso estar mesmo ferrado para o deitar na espreguiçadeira (nunca no berço, parece que lhe estão a espetar pregos nas costas) e ele não abrir logo os olhos. De noite dou-lhe um beijo na testa, deito-o no berço, ainda com os olhos abertos, no quarto dele só com uma luz de presença acesa, e ele adormece sozinho e sem chorar.
  
Quero guardar todos estes pormenores como guardo as centenas de fotografias e videos dos últimos quatro meses. Vejo os dias a passar demasiado depressa e a altura de voltar ao trabalho e separar-me dele por mais de um par de horas a aproximar-se perigosamente. Gosto muito de trabalhar, de me sentir produtiva e activa, e não me estou a ver a deixar o emprego para ficar em casa a cuidar dos filhos. Mas imaginar o dia em que vou deixar Peter Pan na ama (que já está escolhida há dois meses e em quem tenho toda a confiança) de manhã e só volto a ir buscá-lo à tarde deixa-me um nó na garganta sem explicação (sei que me vai custar mais a mim do que a ele, mas esse pensamento não me deixa mais descansada nem um bocadinho).
Emociono-me todos os dias com esta dádiva que me foi dada, com este amor puro que me foi concedido sentir, um amor que dá sem esperar nada em troca, a não ser um sorriso, o sorriso que me derrete o coração e me deixa rendida. Só posso desejar isto, que o nosso filho pequenino (como o L. lhe chama nos sms's que me envia durante o dia para saber se está tudo bem) tenha sempre motivos para sorrir.
Não posso querer mais nada. Eu tenho tudo o que pedi.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Embalar(-te) (IV)

Paulinho Moska
"A flor e o espinho"


Momento (CLXXXVII)

Ver o meu filho a esfregar os olhinhos com sono.
(Adorável)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O luxo supremo

Dormir quatro horas e meia seguidas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

(Está tão crescido...)

Peter Pan já dorme sozinho no quarto dele.

(Não tarda nada vai para a universidade...)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Admitir (III)

Peter Pan mexe-se imenso enquanto dorme, e farta-se de fazer sons (será que sonha? com o quê?). E quando acordava, em vez de deixá-lo estar um pouco a refilar no berço, para que aprendesse a voltar a adormecer sozinho, levantava-o logo para não acordar o L. Que já está a trabalhar. E desperta com todos os barulhinhos do filho, como eu. Um de nós tem de dormir bem. Por isso decidi mudar-me com Peter Pan para o quarto dele, que ainda tem a cama de casal de quarto de hóspedes que era anteriormente (acho que o L. não ficou muito convencido com esta mudança, e vai sentir a nossa falta, e eu também preferia dormir no calor dos braços dele - bem me bastou mais de dois meses de sofá - mas é uma situação provisória, para o bem estar dele).
Esta noite, a primeira que passámos a dois, Peter Pan acordou às sete e tal da manhã, no intervalo entre mamadas, e queria conversa. Para tentar ganhar mais uma ou duas horas de sono, deitei-o na cama ao meu lado. E foi assim que o L. nos encontrou de manhã, antes de sair para o trabalho.
"Admite lá, estavas deserta para dormir com ele na cama, não estavas?"
(E sentir o calor do corpo dele, e cheirar-lhe as bochechas, e ver-lhe a boquinha a chuchar em seco...)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Faltar(-nos) o ar

Primeiro ouvi o som. Um gemido aflitivo. Corri da sala para o quarto onde o L. adormecia Peter Pan. Ele já vinha para a luz da cozinha, com o nosso filho virado para baixo, vermelho do esforço de tentar respirar, engasgado com a própria saliva. "Chora, filho, chora para entrar ar". Sustive a respiração naqueles segundos intermináveis de susto, como se o ar que me faltava pudesse ser necessário para ele.
Quando finalmente chorou e se acalmou, adormeci-o no meu colo, e não queria deitá-lo no berço. Lembrei-me de uma conversa que tínhamos tido há quase um mês, quando me caiu a ficha e disse ao L.  "Tenho plena consciência que vou passar o resto da minha vida preocupada". E sei que vou mesmo, por mais que ele me diga (e sei que tem toda a razão, e tento fazê-lo, mesmo nos dias em que estou rabujenta com sono) "curte o puto ao máximo, ele não vai ser sempre assim deste tamanho".
Este foi o primeiro susto de muitos, eu sei. Também sei que sou capaz de reagir sem entrar em pânico paralisante. Mas a simples ideia de algum mal ou sofrimento acontecer a este pedaço de gente que enche os meus dias de significado provoca-me um medo angustiante.

sábado, 8 de setembro de 2012

Passear

Peter Pan foi pela primeira vez à praia. À nossa praia. A primeira que o pai dele conheceu. A primeira onde passámos férias juntos. Fez uma cara estranha mas não chorou quando sentiu a areia molhada nos pés. Esteve mais desperto do que o normal, numa ânsia de absorver tudo, o som das ondas do mar, os cheiros e a luz, novidades a cada instante deste mês e meio de vida.
(E o meu deslumbramento continua...)








sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Momentos (CLXXXVI)

Ver o meu filho (adoro dizer isto... meu filho...) sorrir enche-me o coração.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Prioridades

Dar de mamar de três em três horas, ir às aulas de ginástica pós-parto, passear sempre que possível, ir lendo algumas linhas do "África Minha" de vez em quando e dormir quando Peter Pan dorme (o melhor conselho que me deram, e que tento seguir religiosamente) não é compatível com o portátil e a net. As minhas prioridades agora são outras. E ainda me falta acabar o quadro para o quarto dele.
Mas a prioridade maior é vê-lo. É absorver cada bocadinho dele. Tirar muitas fotografias e gravar muitos videos. Para lhe mostrar um dia. Para recordar sempre. Porque ele está a crescer e a mudar de dia para dia. Já não é o minorca que trouxemos para casa há pouco mais de um mês. As feições já são diferentes. Os olhos já clarearam. As pernas já estão mais rechonchudas. Já tem mais cabelo.
Quero gravar os movimentos descoordenados dos braços e das pernas, e os sons que ele emite enquanto olha para as próprias mãos, num ensaio do que em breve será um palrar incessante, e o olhar atento com que tenta focar a minha cara enquanto falo com ele, todas as manhãs, entre as 8 e as 9 horas, quando está desperto e bem disposto e só quer conversa. E o som adorável que faz a chuchar, e que só me faz lembrar a Maggie dos Simpsons. Quero fotografar vezes sem fim a expressão de satisfação beatífica que ele faz quando acaba de mamar, braços para cima e bochechas cheias que cubro de beijos para lhe sentir a pele quente. Quero guardar na memória o cheiro doce da pele dele, que um dia (tão assustadoramente próximo) vai desaparecer. Porque ele nunca mais vai ser assim tão pequenino.
(E eu vou ter tantas saudades...)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Enfim sós

Hoje foi o primeiro dia em que fiquei sozinha com o meu filho. Durante um mês e uma semana, o L. foi uma presença constante e uma ajuda valiosa. Durante um mês e uma semana andou de calções e chinelos a embalar o filho ao colo durante horas a fio. E a dar-lhe banho. Agora que penso nisso, só dei um banho ao Peter Pan, e foi no primeiro dia em que chegámos a casa.
Hoje passámos o dia entregues um ao outro. E tive a noção da realidade que já me tinham anunciado: "nunca mais vais estar sozinha".
(Sabe tão bem...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Todo um mundo novo

"Uma vez mais lhe pegou ao colo, o abraçou apertadamente e o cobriu de beijos. (...) Ela precisava de estar sempre perto do pequenito, de o acariciar, de o beijar, de lhe sentir a pele macia, de o cheirar, de ter a certeza que era dela."

In: O Império dos Pardais


O primeiro mês de vida de um recém-nascido é um tumulto de emoções e sentimentos às vezes contraditórios. A ânsia de o absorver e mimar, e o medo de estar a fazer alguma coisa (tudo..) de forma errada.
Nem tudo é fácil, mas também não é de ficar à beira da loucura como tantas vezes ouvi e li. 
Começou logo na maternidade. Peter Pan não sabia mamar. O meu desespero só era comparável ao dele, a chorar desconsoladamente com fome, a sentir o cheiro do tão desejado leite, e sem conseguir alimentar-se. O meu coração partia-se em mil estilhaços. Tive de pedir ajuda às enfermeiras e auxiliares. De cada vez que ele queria mamar. E sempre me ajudaram com um sorriso. E me apoiaram para não desistir. Só tenho elogios a tecer ao pessoal da maternidade de Leiria. A simpatia e profissionalismo de todas (mas mesmo todas) as pessoas que contactaram comigo nos dois dias em que estive internada superou todas as minhas expectativas. 
Regressar a casa foi um alívio mas também uma fonte de receios. Tinha finalmente o silêncio das noites sem o choro continuo de bebés vindo do corredor ou da cama ao lado (passei a primeira noite sozinha no quarto, mas na noite seguinte já tive companhia, e das barulhentas - ora era a bebé que chorava, ou a mãe que ressonava...), mas também não tinha o apoio do pessoal especializado que me tirava todas as dúvidas e me dava segurança por saber que estavam à distância de um toque de campainha. As duas primeiras tentativas de amamentar sozinha foram um teste à minha capacidade de manter a calma. Pelo meu filho. Mas ele foi aprendendo. E aquele momento que começou por ser uma tortura, passou a ser uma delícia para os meus olhos. Vê-lo mamar sacia o meu instinto animal de alimentar a minha cria. 
Não me canso de olhá-lo. Tanto que o L. (tão, mas tão babado como eu...) me chegou a dizer "pára de olhar para ele, assim gastas o puto..." Pai presente, pai carinhoso, pai como eu nunca ousei imaginar nos meus sonhos mais loucos. Eu sabia que o L. ía ser um bom pai, mas não estava à espera que criasse uma ligação tão forte e tão imediata ao filho. Foi a melhor surpresa que eu podia ter desejado. Agradeço-lhe profundamente o facto de ter tirado licença e férias para ficar em casa no primeiro mês e meio de vida de Peter Pan. Sem a ajuda e a descontracção dele, não tería conseguido viver esta nova fase da nossa família com a tranquilidade que ele me transmitiu todos os dias. O amor e  atenção com que lhe muda as fraldas, dá banho ou embala ao colo comovem-me e enternecem-me. 
Depois foi o "drama" do peso. Peter Pan não engordava. Enfermeira aconselhou acordá-lo a intervalos de duas horas e meia, para mamar (de dia e de noite). Assim fiz. Ao terceiro dia a falta de sono começou a fazer estragos na minha paciência e tranquilidade. Pediatra (descontraído mas que nos inspirou confiança assim que abriu a boca) diz para me deixar de meter macacos na cabeça.  E as noites voltam a ser feitas ao ritmo da fome do nosso filho, e não ao nosso. Começou a ganhar peso na semana seguinte. E as bochechas dele não enganam.
Agora estamos na fase das birras de sono (descomunais). Peter Pan tem um olhar atento, e quer ver tudo o que o rodeia. Como podemos querer que durma, se tudo à volta dele é novo e desconhecido, e há tantas cores, e sons, e cheiros para descobrir? Pois...
Todos os dias são diferentes. Todos os dias aprendemos algo novo sobre este pequeno ser que encheu a nossa casa e mudou irremediavelmente a forma como vemos o nosso mundo e as nossas prioridades. Não me canso de olhá-lo. De cheirá-lo. De beijar-lhe a prega de pele por baixo da nuca. De sentir o calor do corpo dele encostado ao meu. De senti-lo meu.

(E já passou um mês...)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

É só isto...

"Mas era puro o amor que sentia. Era religioso. (…) Senti-me tão profunda e terrivelmente feliz. Pensei para comigo mesma: Seja lá o que for este sentimento, é por ele que tenho rezado. E também é a ele que tenho rezado.”

In: Comer, Orar, Amar

sábado, 4 de agosto de 2012

Embalar(-nos)

Darko e Sandra Celas 
"Para Nunca Mais (Acordar)" 


sexta-feira, 20 de julho de 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Para lembrar (para sempre)

Ontem foi um dia perfeitamente normal, fui trabalhar, fiz jantar, preparei a roupa para o dia seguinte e deitei-me no sofá perto da meia noite (passei os últimos dois meses e meio de gravidez a dormir no sofá, o único sítio onde tinha uma posição confortável, costas encostadas, uma almofada enorme entre as pernas e uma mais pequena por baixo da barriga). Não estranhei quando acordei à uma da manhã com vontade de fazer xixi, era o pão nosso de cada noite. Mas assim que me sentei e pus os pés no chão, senti. As águas a rebentar. Só tive tempo de ir a correr para a casa de banho. Tirar a roupa toda e passar-me por água. Respirar fundo antes de ir ao quarto. Acordá-lo devagarinho "olha... rebentaram-me as águas... temos de ir para o hospital". Não sei se ele ainda estava a dormir, mas a primeira reacção que teve foi um sorriso de orelha a orelha "a sério?". Depois acordou e o nervoso miudinho tomou conta dele, vestiu-se em dois minutos, o tempo de eu ligar à mãe para ela sair de casa e esperar por nós na rua. Ele já ía a sair porta fora quando o chamei para pegar na mala da maternidade, e os três ou quatro minutos que estivémos à espera que a minha mãe descesse foram para ele uma tortura (acredito que pensou seriamente em ir embora e deixá-la para trás).
Demorámos quarenta minutos a chegar a Leiria, não era o hospital mais próximo, mas sim o que eu tinha escolhido para mim (e o meu maior medo era que tivesse de ir de urgência para o outro, aquele onde passei um dos piores momentos da minha vida, onde passei quatro horas na sala de espera sabendo que estava a perder um sonho, o sonho que estava agora prestes a concretizar). Estava calma, apenas com uma leve sensação de ansiedade no estômago quando entrei nas urgências de Obstetrícia, sala vazia às dez para as duas da manhã, fui chamada passados poucos minutos, primeira observação, e a minha preocupação era só uma: as águas já rebentaram há quase uma hora, o meu filho está bem? Tem líquido suficiente ou vai entrar em sofrimento? Descansaram-me logo, o bebé estava perfeitamente bem, levaram-me para uma sala de partos, vesti a camisa de dormir que tinha trazido comigo, espetaram-me uma agulha no pulso para o soro (esta merda doeu como o raio, e o tubo era tão curto que não podia fazer grandes movimentos com o braço) e deitei-me na maca XL, ligada ao CTG e sem contracções nenhumas. A enfermeira desligou a luz e disse-me para descansar "porque mais logo vai ter um dia violento". Passei as três horas seguintes ora a dormitar, ora a trocar sms's com ele (que se recusou a seguir o conselho da enfermeira e a ir a casa ou dormir umas horas a um hotel. Ele foi dormir para o carro, a minha mãe nem isso, não arredou pé da sala de espera), ora a ouvir os barulhos e apitos da máquina que registava os movimentos do meu filho. De vez em quando uma enfermeira entrava no quarto, ajustava o sensor ou dava-me um chupa-chupa para que o pequeno se mexesse mais.  Por volta das quatro da manhã avisaram-me que me íam da oxitocina para acelerar as contracções, e mais tarde (talvez duas horas depois) perguntaram-me se queria epidural. Ora nessa altura as contracções ainda eram tão fracas que cheguei a considerar a hipótese de não levar a anestesia "se isto continuar assim, aguento bem...". Mas a paragem cerebral passou-me rápido, assim que senti duas ou três contracções mais fortes, pedi para chamarem a anestesista, e foi a melhor decisão que tomei. Não foi preciso ninguém segurar-me nas pernas para não esticarem involuntariamente, nem senti nenhuma espécie de choque eléctrico como já tinha ouvido, fiquei muito quietinha em posição fetal, com a respiração muito compassada e superficial, e foi o mesmo que levar uma anestesia num dente.
Mais tarde uma enfermeira veio pedir a primeira roupa do bebé, e preparou tudo na mesa ao lado da maca, perguntou quem era o acompanhante e disse-me logo que ía pô-lo a trabalhar, sería ele a pôr a primeira fralda e a vestir o filho. Nessa altura (por volta das nove da manhã) deixaram-no entrar, e ficámos os dois sozinhos, à espera, ele ía vendo os gráficos no ecrã e tentando adivinhar quando sería a próxima contracção, e dáva-me a mão com força quando me sentia a controlar a respiração, tal como tinha aprendido nas aulas de preparação (para mim foi uma ajuda preciosa, saber tudo o que ía acontecer, todas as fases do parto e o que devia fazer em cada uma delas deixou-me muito mais confiante e segura, e tenho a certeza que foi por isso que consegui manter a calma e ter um parto sem dramas, sem gritos - sempre disse que não queria ir para a maternidade gritar feita histérica - e sem descontrolo).
Nas aulas ensinam-nos que há uma fase em que temos vontade de fazer força, e nessa fase, devemos tocar a campainha para chamar a enfermeira, e só fazemos força depois de se verificar que a dilatação está completa. Fiquei à espera de sentir essa vontade, mas não aconteceu, só tinha umas contracções mais fortes, sim, mas não insuportáveis. Foi a parteira que verificou no monitor dela que já devia estar na hora, entrou de rompante na sala, espreitou e disse que já podia fazer força. Ainda perguntei se podia mesmo, só para confirmar, e comecei a fazer tudo tal como tinha aprendido: encher os pulmões de ar, encostar o queixo ao peito, fazer toda a força do mundo, aguentar o máximo possível, deitar o ar fora e encostar a cabeça para trás, repetir tudo outra vez. A primeira tentativa não correu muito bem "está a fazer força no pescoço, tem de fazer força cá em baixo", as seguintes foram melhorando "já consigo ver os cabelos, não pare de fazer força", "agora vou-lhe fazer um corte, está quase", "vai chamar alguém, vou precisar de ajuda" - esta última frase avivou os meus maiores medos, não, o meu filho não ía nascer com fórcepes nem ventosas, fui buscar forças não sei onde e em poucos segundos "despachei o assunto", a sensação de alívio enquanto ouvia a parteira a dizer "já não é preciso, já não é preciso", e o assombro de ver o meu bebé pela primeira vez, isto é, ver-lhe o rabo arroxeado e ensanguentado quando o colocaram em cima de mim antes de o limparem, e depois... depois ouvi-o. O choro do meu filho (e estou a escrever isto e as lágrimas querem saltar-me dos olhos, porque foi o momento em que caí em mim, em que este sonho se materializou, o nosso filho estava ali, tinha uma voz, uma cara, um corpo pequenino). Olhei para o L. que não largou a minha cabeceira nem por um minuto, que foi o apoio e incentivo que eu precisava, que se portou à altura e acho que até fazia força quando eu fazia também, com a testa dele encostada à minha, que empurrou com o braço dele a minha barriga quando a parteira lhe pediu ajuda, o pai que eu sempre quis para o nosso filho, e vi que ele estava tão comovido como eu, tão maravilhado quando puseram aquele ser enrugado e meio sujo em cima do meu peito e ele ali ficou muito sossegado, com os olhos escuros muito abertos, enquanto lhe dizíamos o tanto que tínhamos esperado por ele.

(Re)nascer

Tenho o coração nas mãos.
A partir de hoje, e até ao último dos meus dias de vida.
Deixou de bater dentro do meu peito.
Tenho o meu coração nas mãos.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Um dia vou ensinar-te...

... que se pode chorar da mais pura comoção...


"Antes que chegue o peter pan

há duas ou tres coisas que te queria dizer.
Antes de mais, parabens, Por tudo. Pelo teu sonho, em primeiro lugar, pelo teu esforço, pela tua coragem, pela tua luta. E pela tua vitória.
O teu esforço deu frutos e esta é uma nirvana mais que merecido. Tu mereces mais do que ninguém. Porque nunca desististe e, ainda por cima, deste-te toda a este sonho.
Ao longo dos anos que nos fomos conhecendo, houve coisas que nao te pude dizer, sob pena de ferir o teu sonho. Eu nunca duvidei que conseguisses engravidar mas, confesso, sofria a par contigo cada decepção tua. Rezei muito para que Deus te concedesse esta Graça mas, no fundo do meu coração, vivia hororrizada com os teus fracassos... Como foi possivel teres suportado tanto? Como foi possivel teres sofrido assim?
Admiro-te muitissimo. Es a lutadora mais corajosa que já conheci. Traçaste um sonho e foste-lhe fiel desde sempre. Com a mesma garra, a mesma fé, o mesmo amor.
Quantas mulheres teriam feito o mesmo? Eu não, certamente. Já me teria conformado, já estaria depressiva e auto-abandonada a um canto, ja estaria separada (o meu feitiozinho de merda jamais me deixaria estar com alguem a sentir essas frustrações todas) e estaria afogada em vinho e cigarros. mas tu não... Deste-te, entregaste-te toda, com uma ternura magnifica, com um amor incondicional. Que maravilha que foi, que é, assistir de tão perto a algo assim tão grandioso como tu.
Mais que outra coisa qualquer, tu mereces este peter pan. Este menino deus que vai nascer de ti é teu porque o mereceste, porque és uma eleita de deus e porque (desculpa a ousadia) o teu Pai te abençoou Lá de Cima.
Perdeste uma vida para ganhar outra, cheia de pedacinhos da anterior... Irónico, não é?
Mereces este Peter pan, sim, e sei que vais deixá-lo crescer com todo o amor que já provaste ter. Vais amá-lo sem o estrafegares, vais cuidar dele com ternura, cuidado, com o coração a bater descompassado por tudo e por nada, quando o vires cair e quando o ouvires a dizer mamã.
Eu, minha querida guerreira, minha benção, meu exemplo de vida, vou estar aqui, sempre, como estou hoje, de lagrimas nos olhos, emocionada com a tua entrega e com o tamanho desmesurado dos teus sonhos e do teu amor.
Adoro-te, com todo o orgulho e com todo o meu coração.
Sê feliz, minha guerreira abençoada.
O teu dia chegou.
Parabens"

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Coração forte

Quando fiz o primeiro CTG tinha comido há mais de uma hora e estava com fome. Peter Pan mal se mexeu, para mal dos meus pecados. Desta vez enfardei o puto em comida até chegar ao consultório. Resultado, fartou-se de dar pontapés onde sentia o sensor (ou lá o que chamam àquela coisa agarrada à minha barriga com elásticos). E o som do batimento cardíaco dele ouvia-se lá fora na sala de espera.

(Contracções, nem vê-las. Pensar em sair dos 37º e vir aturar a crise? Está deserto...)

sábado, 7 de julho de 2012

Esticar a corda

Tinha falado nisto há quase um mês "não sei se este ano consigo ir à Serra no aniversário do meu pai...". O assunto ficou por aí, mas ontem de manhã ele lembrou-se (eu às vezes acho que ele não liga ao que eu digo, e depois fico surpreendida...) "sempre queres ir lá acima amanhã?". Avisei a mãe para preparar-se mas sem avisar ninguém, e esperei para ver se havia algum desenvolvimento durante a noite. Nada. Para além das dores estranhas que já ando a sentir há uns dias, nada de especial. Então arriscámos. Metemos o saco para a maternidade mais o criokit mais a mãe no carro, e fizémo-nos à estrada. Qual era a pior coisa que podia acontecer? O puto nascer na Covilhã ou em Manteigas? Também nascem bebés nas Beiras e tenho a certeza que são rijos.
Escolhemos a rota mais curta, metade dela em auto-estrada, para chegarmos o mais rapidamente possível (duas horas e meia), abrimos o portão do cemitério vazio e fiquei a conversar um pouco com o meu pai enquanto a mãe arranjava a jarra com o ramo de rosas brancas que tínhamos levado: uma por cada um de nós, mulher, filhos, noras e genro, e netos. No primeiro ano foram oito, o ano passado foram nove, este ano são doze rosas. A família está a aumentar, pai. Deixámos a mãe sozinha para ter o seu momento de instrospecção, depois respirámos fundo e fomos fazer uma visita relâmpago à família, primeiro a minha madrinha, depois a tia C. "E porque é que não avisaram, e fiquem para almoçar, e pelo menos sentem-se um pouco..." Que não, que só queríamos dar um beijinho porque tínhamos de regressar para eu ir descansar (metade verdade metade desculpa...), e que almoçávamos pelo caminho, e que para a próxima vínhamos com mais tempo (é a mesma conversa há três anos, mas que queres? Ainda não me sinto bem a ficar, tudo me traz memórias, todas as conversas vão dar a ti...).
A verdade é que tínhamos combinado encontrar-nos com um antigo colega de escola dele, que já não via há mais de dez anos. A (nossa) lagoa estava deserta (lembras-te das nossas férias, dos piqueniques, de eu quase me ter afogado ali quando tinha seis anos e de a mãe se ter atirado à água para me ir buscar, por instinto, mesmo sem saber nadar?) e a conversa parece que passou a correr, o tempo suficiente de beber um chá acompanhado de biscoitos de chocolate, um resumo dos últimos dez anos contado em pouco mais de meia hora, mas com a promessa de repetir, de nos encontramos de novo quando ele vier "cá abaixo".

 

 Depois das despedidas, subimos à Torre que mal se via envolta em nevoeiro, e onde o carro marcava uma temperatura exterior de uns estuporados 9º (em Julho!! Coitadas das pessoas que estão de férias agora, passaram um ano inteiro à espera destes dias de sol e calor, e levam com um tempo destes...).


Como eu estava a sentir-me perfeitamente bem, decidimos regressar de nacional, passando pelo Fundão. Até aí tudo bem, parámos para comprar cerejas e pêssegos, e... seguimos pela Serra da Gardunha. Ora bem, as duas horas seguintes foram um delírio para ele, e um desconforto para mim. Não me lembro de alguma vez ter visto tanta curva e contra-curva seguidas. Aquela estrada não tem rectas. Foram duas horas de movimentos ondulantes, com Peter Pan (que nas viagens de carro nunca se acalma) em desassossego absoluto. Sei que o L. adorou a estrada, e se não trouxesse uma grávida e uma foca no carro ("Então já dormiu tudo? Ía aí de boca aberta e a coçar a barriga, parecia uma foca!!..") tería aproveitado muito mais, com travagens em cima das curvas e acelerações que não fez para meu (nosso) bem. Já lhe disse que pode lá voltar, mas sozinho, que eu odiei.
Perto das oito da noite achámos que era melhor começar a procurar um sítio para jantar, e poucos minutos depois damos de caras com a entrada para o Festival Gastronómico do Maranho e Bucho. É mesmo aqui!! Deixámos o bucho para as filas intermináveis à porta dos restaurantes, e comemos sopa da pedra, bifanas e melão de Almeirim ("foi apanhado há dois dias, está uma maravilha" - estava sim senhor...) numa tenda de Confrarias, antes de fazermos a última hora e meia até chegar a casa.
Quando chegámos aos semáforos e eu já quase conseguia cheirar  o meu sofá, olho para fora e vejo fogo-de-artifício no céu (de algum casamento na quinta da ponte, concerteza). Arrancou-nos um sorriso esta forma inesperada de acabar um dia cheio (e como ele disse, "muito longo").

sexta-feira, 6 de julho de 2012

É de louvar...

8 meses e meio, e ainda consigo pintar as unhas dos pés...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ser egoísta

Na segunda feira, quando disse à mãe que já estava com um dedo de dilatação, a única resposta que tive foi num tom entre a mágoa e a apreensão " se calhar nasce no dia do avô...". Percebes porquê, não percebes? Esta manhã falei com o N. e com o L., e os dois me disseram o mesmo "eh pá, aguenta mais um dia...". Percebes porquê, não percebes? Nenhum de nós gostaría que o Pedro (ou o D., pelos vistos pregou mais um susto no fim de semana, o puto quer nascer à força...) nascesse hoje. Hoje é o dia do teu aniversário. Nunca (mais) será um dia completamente feliz. Terá sempre a sombra da tua falta. Por isso estou à espera que a meia noite não demore muito a chegar. Para este dia acabar depressa. É um pouco egoísta da minha parte, não é? Mas acho que este sentimento de falta que sinto é mesmo isso. Egoísmo. Queria-te ter aqui não (tanto) por ti, mas sim por mim. Para mim. Para me sentir a menina acarinhada que sempre fui aos teus olhos. Sei que por esta altura já andarías a franzir o sobrolho pelo facto de eu ainda estar a trabalhar, preocupado com o meu descanso (sei que a mãe pensa o mesmo, mas não diz nada, como sempre respeita as opções dos filhos sem se meter, mas isto deve roer-lhe as entranhas de uma maneira...). Terías de te conter para não ligar todos os dias a perguntar se estava tudo bem. E não largarías o telemóvel à espera DA chamada. Em vez disso, gosto de acreditar que conheces o teu neto melhor do que nós. Que já lhe viste as feições e sabes com quem é mais parecido. Que olhas divertido os movimentos que fazem dançar a minha barriga, e que eu só posso imaginar (é uma perna... agora encostou aqui o rabo...) e sentir (cada vez com mais força). Tenho a certeza que estás a protegê-lo desde o primeiro minuto de vida. Não é possível esta gravidez ter corrido tão bem sem uma ajudinha "externa". Uma cunha das grandes. Estás a olhar por nós, não estás? 


(Muitos parabéns, pai.)

terça-feira, 3 de julho de 2012

(Vais ser tão mimado...)


Conversas noutros lados...

(É por isto que o Twitter não me serve...) 

Ice Berg disse...
É engraçado... Eu quando estava grávida andava mesmo em estado de graça. Achava tudo fabuloso e fantástico (Na tua fase não. Na tua fase já estava exausta. Mas felicissima. :)).

Hoje, olhando para trás, pergunto-me como raio é que eu andava tão feliz. Para teres uma ideia, eu tive azia 24h por dia durante 39 semanas! Eu descobri que estava grávida porque achava que tinha uma úlcera tal era o nível de azia! Eu cheguei a dormir sentada por causa da azia! Eu só conseguia comer peixe grelhado com legumes cozidos... Como é que alguém pode viver tão feliz nesse estado???? Eu era. Estava! E achava tudo normalissimo. :D

(quanto tempo falta?)

(e, sim, faria tudo, outra vez.:P)



Rosa Negra disse...
Eu já ando a dizer que vou ter imensas saudades da minha barriga. Olho para o espelho e acho-me lindíssima. Há 6 meses que tenho azia (o puto vai nascer com cabelo até aos joelhos...) e há 2 meses que durmo no sofá (mesmo) porque não tenho posição na cama. E mesmo assim ainda não estou farta de estar grávida, nem exausta (aliás, continuo a trabalhar a 100%, e a ir às aulas de preparação para o parto, e a correr de um lado para o outro como antes). É uma das fases mais felizes da minha vida, talvez por ter sido tão desejada. Mesmo que estivesse a correr mal ou com complicações, eu não me iría atrever a reclamar fosse do que fosse. Mas não é o caso, e tenho mesmo de agradecer a quem está lá em cima a olhar por mim e pelo meu filho :)

(Está previsto para 22 de Julho, mas já estou com 1 dedo de dilatação, por isso não chego lá...)

(Desculpa o testamento...)

sábado, 30 de junho de 2012

Ter vocação

Quase todos os meninos passam por uma fase em que querem ser bombeiros quando forem grandes. Mas depois passa-lhes. Ninguém escolhe a profissão de bombeiro pelo dinheiro ou prestígio de uma grande carreira. Pode até ser pela adrenalina ou pela possibilidade de conduzir ambulâncias em excesso de velocidade e por sentidos proibidos e sinais vermelhos. Mas ser bombeiro não é isso (ou não é só isso). É carregar com velhotas de mais de cem kilos pelas escadas até um quarto andar. Ver um menino de três anos morrer-lhe nos braços depois de cair de uma varanda. Ou ter de fazer um parto de emergência. E para isso é preciso muito mais do que a vontade que os jovens de dezassete anos têm quando se inscrevem como voluntários.
O meu puto mais novo é bombeiro. De profissão. De vocação. Faz o que adora. Aprende tudo o que pode, numa ânsia constante de ser melhor. Hoje foi a cerimónia em que subiu a bombeiro de 1ª. E recebeu uma medalha por dez anos de serviço. Hoje foi um dia de orgulho imenso para ele e para nós, a família toda reunida para partilhar um momento tão importante para ele (terías sido tu a colocar-lhe as divisas nos ombros. O N. substituiu-te como padrinho. Viste como ele estava feliz por estarmos todos presentes?)


Momentos (CLXXXV)

Celebrar o aniversário do N. com um almoço de família e um bolo que era a cara dele,


matar saudades dos meus pequenos, e deliciar-me com a doçura da L., com as (muitas) palavras que já diz, com os mimos que dá ao irmão, com os seus caracóis cada vez mais compridos e os olhos cada vez mais expressivos,



e tirar a primeira fotografia a três...


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Um coração gigante

Pedro. O nosso filho vai chamar-se Pedro. Por causa do dia de hoje. Dia de São Pedro. Dia em que nasceu o meu irmão. O "padrinho", mesmo que cheguemos à conclusão que não queremos baptizá-lo. Sempre soube que o N. sería o padrinho do meu primeiro filho, sem hipótese de considerar sequer outra pessoa. A adoração que lhe tenho é de sempre, a admiração tem crescido ao longo dos anos em que o vi crescer e transformar-se no homem que é hoje. Mas nenhuma transformação foi tão rápida ou drástica como vê-lo tornar-se pai. O meu irmão não pegava num bebé ao colo. Ou então ficava teso e nem se mexia de tão desconfortável. Agora passa noites a tomar conta da filha quando a C. faz turnos. Diz-me pelo telefone, cheio de ternura, depois de um dia de trabalho "vou para casa dar a papa à minha Shreka e deitá-la". Acompanha os TPC's do meu sobrinho, incute-lhe regras, educa-o, e também rebola com ele no chão em sessões de wrestling.
Há coisa de duas ou três semanas, telefonou-me num sábado à tarde a perguntar se eu estava em casa "então já aí passamos". Pensei que viesse com a família toda, mas entrou-me pela porta seguido só do meu puto mais novo. Eu sabia que o L. estava a passar uma má fase conjugal, a gravidez da S. não estava a ser nada fácil, com uma série de complicações, incluindo ameaça de aborto, e tudo junto estava a afectá-los psicologicamente e enquanto casal. E o meu irmão, com o seu coração gigante, só disse ao mais novo "estás a precisar de ir falar com o pai". E assim foi buscá-lo aos Bombeiros depois de um turno nocturno, levou-o à Serra e deixou-o sozinho na campa (desta vez não teve de saltar o muro do cemitério), para que ele pudesse desabafar tudo e encontrar ali um alívio que mais ninguém lhe podia dar. Ao vê-los ali à minha frente, o L. com os olhos inchados e vermelhos da directa que tinha em cima e do choro que o acalmou, e o N. cansado das várias horas a conduzir, mas com um sentimento de dever cumprido, senti um imenso orgulho. Porque fazer o que o N. fez naquele dia requer generosidade. Sensibilidade. Empatia. Preocupação com o próximo. Coração.
O meu irmão é assim. Hoje faz 33 anos. E acho que não sabe nem sonha o quanto o adoro, o admiro, me orgulho dele.

(Fiquei muito mais descansada...) II

- Acho que tenho a barriga mais descaída. Não achas?
(Depois de olhar para mim com ar de "mais vale dizer-te que sim de qualquer forma..." e ainda lançar uma explicação mais do que lógica sobre o puto poder estar mais enrolado só porque lhe apetece e também tem direito...)
- Mas não te preocupes que ele não cai...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Pensamento recorrente

Desde que o balão insuflado que trago aqui pendurado à frente me impede de ver as unhas dos pés, só consigo pensar naqueles homens que têm uma pança enorme, e como deve ser triste olharem para baixo e não conseguirem ver o que têm no meio das pernas...
(Não é um pensamento muito digno, é verdade, mas dá-me pena, coitados...)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dar ideias

Depois de ver umas fotos deste género que lhe enviei por email:

"Tas mesmo para explodir ainda tens de usar uma mochila com uns pesos para fazer contra-peso"

(A minha Paula é que sabe...)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Tenho de jogar no Euromilhões...

Ontem, assim do nada e só porque estávamos a falar do que tínhamos de fazer no fim de semana, ele sai-se com um "não te esqueças que no domingo temos um baptizado".
F&$%#", f&$%#", f&$%"#, nunca mais me tinha lembrado disso!! Ainda nem sequer comprámos uma prenda para o puto!! E pior ainda, o verdadeiro drama - O QUE É QUE EU VISTO?!?!
Toca de sacar do armário todos os vestidos minimamente apresentáveis para entrar numa igreja, e experimentá-los um a um. Não sabia se havia de rir ou de chorar. Aquilo cabia tudo nas ancas, nos ombros, mas quando chegava à curva da barriga... não passava nada...

Hoje, em desespero de causa já estava a planear ligar à A. e pedir-lhe um trapinho qualquer para desenrascar, de certeza que teve de ir a algum casamento durante as três gravidezes, e ela tem bom gosto e muito estilo, qualquer coisa que me empreste é melhor do que parecer um barril com pernas apertado em tecido rendado...
No escritório comentei com a R. o meu problema, e a resposta foi música inesperada para os meus ouvidos: "olha, tenho ali no carro um vestido que usei num casamento quando estava grávida de 8 meses e meio, ía mandar apertá-lo hoje...".

É de cetim preto, simples e acenta-me como uma luva.
(A minha mãe sempre disse que nasci com o cú virado para a lua...).

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Eu e as multidões...

"Estes sim, são adeptos a sério. Mesmo depois da sua selecção estar a perder por 4-0 e o jogo estar quase no fim, eles não deixam de incentivar os seus jogadores e cantam em plenos pulmões durante os últimos 6 minutos e até todos os jogadores da sua selecção terem saído do relvado para os balneários. Foi arrepiante ouvi-los durante o jogo e continua a ser arrepiante quando estou a ver o vídeo que deixo de seguida. Todos os adeptos da selecção da República da Irlanda que estiveram hoje no estádio a puxar pela sua selecção merecem o meu enorme respeito."

 (Não podia estar mais de acordo).

"Fields of Athenry"
Final do jogo Irlanda vs Espanha
(Euro 2012)


segunda-feira, 11 de junho de 2012

(Fiquei muito mais descansada...)


- Uma das aulas vai ser para casais, e a essa gostava que fosses.
- É para aprender o quê? A mudar fraldas? Com nenucos?
- Não, é para aprender o que podes fazer para me ajudar na altura do parto.
- Ah, mas isso eu já sei, levo um bocado de madeira e meto-to na boca para morderes, e depois gritas à vontade...

domingo, 10 de junho de 2012

Valeu a pena agrafar um dedo...

A porta do armário do meu sogro ficou linda, a caixa forrada também (desde que ninguém olhe para o interior cheio de agrafos...), os sapatos já estão todos arrumados, só faltam as botas (ainda tenho de me encher de  paciência para forrar a outra caixa), Peter Pan já tem banheira e colchão para a cama de grades, a roupa dele está toda lavada, passada a ferro e arrumada no armário, os peluches já estão lavados e troquei-lhes as fitas vermelhas por laços azuis, a mala para a maternidade já está pronta e o kit de criopreservação de células estaminais já chegou.



A minha necessidade obsessiva de controlo está - quase - satisfeita...
(O carro com o ovo, falta o carro com o ovo...)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Insuflar

Não, não é uma almofada...


É mesmo a minha barriga...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Rever os clássicos (II)

Carlos Santana & Everlast
"Put Your Lights On"



terça-feira, 5 de junho de 2012

Não resisti...




Rever os clássicos

A única vantagem de estar sozinha, esta semana, no escritório (já não lhe posso chamar "solário", já tenho uma janela de onde vejo  todos os dias o pôr do sol sobre os campos cultivados da quinta que abarca o meu horizonte) é que posso ouvir a música que me apetece.

Buena Vista Social Club
"Chan Chan"


sábado, 2 de junho de 2012

Ver o futuro

Pinturas para bebés, esparguete azul e cor de rosa, e (uma espécie de ) plasticinas, tudo comestível, tudo propício para a animação e mais completa javardeira. A M. e o J. adoraram, a J. deixou-se ficar sossegada no seu ovo até adormecer sozinha, depois de ter puxado a fralda de pano até tapar a cara, como ela gosta (um doce...).








quinta-feira, 31 de maio de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Momento (CLXXXIV)

Sardinhas de alfazema para as gavetas de Peter Pan, para os cestos de verga que (finalmente) acolhem os meus sapatos, e para o novo armário, carregado de casacos.
Depois de nos benzermos com os orçamentos de mais de mil euros por um armário feito à medida para o hall de entrada, descobrimos no sotão do meu sogro um guarda-fatos antigo. Sogro devidamente cravado, ainda fez o enorme favor de partir o espelho da porta do meio enquanto desmanchava o móvel, o que para mim foi uma sorte, porque já andava a dar voltas à cabeça para descortinar como é que ía esconder aquilo. Assim, bastou uma mão cheia de nozes (dica infalível - miolo de noz faz desaparecer todos - mas mesmo todos - os riscos da madeira) e uma dose maciça de vaselina para termos um armário porreiro e com toda a arrumação que precisamos agora (bem, toda toda não, porque continuei sem sítio para pôr os sapatos. Daí os cestos.  Mas enquanto não mudarmos para uma casa com um closet só para mim, vai ter de servir...).


Um dia hei-de mostrar-lhe...

"Carta para um rapaz que está a caminho de vir ao mundo
Não ouças o que todos te dirão, que isto está difícil e que o mundo está como nunca esteve por causa disso da crise, eu sou um incorrigível optimista e isso não mudará agora que estou a caminho da idade em que os homens compram Porsches descapotáveis, e é por isso que eu, meu rapaz, te recomendo que sejas gentil com todos os que estão à tua volta, principalmente com aqueles que estão numa posição menos forte que a que tua, prefere sempre a física e a matemática, vai ajudar-te-a sistematizar os problemas mesmo que venhas a ser actor de teatro ou funcionário das finanças, sê cortês com as mulheres, trata-as com deferência, nunca perdendo de vista que elas são, serão sempre, melhores que tu, nunca te esqueças de tirar as meias antes de teres sexo, ouve música exacta assim que possas e tenta ler Eça, os Maias ou a Cidade e as Serras, ajudar-te-ão a entender as subtilezas da vida, preocupa-te com os pormenores, chora sempre que precises, de preferência sem que ninguém esteja a ver, habitua-te a ir a Alvalade pelo menos uma vez por mês, tornar-te-à mais resiliente, pede que te ofereçam um cão grande e habitua-te a respeitá-lo, verás que ficarás com um amigo para a vida, escolhe com parcimónia aqueles que queres que se tornem teus amigos, não te metas com o facebook, seja colocando lá a tua vida, os teus sentimentos, o que tens de mais precioso, seja comprando acções daquilo, acredita no amor, as vezes que forem necessárias, se não acreditares no amor não terás préstimo, trata dos dentes e esquia pelo menos uma vez por ano, aperta com firmeza a mão de quem te cumprimenta e olha as pessoas nos olhos, principalmente se estiveres a jogar póquer, sorri, preocupa-te com os teus pais, liga-lhes sempre que tiveres dúvidas, eles vão ajudar-te incondicionalmente, mesmo quando não parece, aprende a trabalhar sob tensão e muda para um canal de desenhos animados sempre que esteja na hora dos telejornais, não te esqueças de usar protector solar e aprende a dançar, vai ser útil no teu casamento, sorri, aprende a usar os talheres desde cedo e pede que te ensinem a escolher vinhos que dêem sentido com a refeição que vais tomar, compra uns bons sapatos castanhos e outros pretos, nunca digas a uma mulher que a amas se isso não for rigorosamente verdade, pensa nos outros, beija de olhos fechados sempre que possível, não compres carros italianos, aprende pelo menos três nós de gravata diferentes e mantém sempre os sapatos rigorosamente engraxados, não te preocupes se mais ninguém entender a piada que disseste e, se perceberes que uma mulher entendeu a tua piada, casa-te com ela se hesitar."


(Não fosse Alvalade e os carros italianos, e sería a carta de valores perfeita).

terça-feira, 29 de maio de 2012

Momento (CLXXXIII)

Trazer para casa duas caixas de cerejas vindas directamente do Fundão. Grandes, pretas, suculentas. Para comer até ficar com as pontas dos dedos manchadas.




(Observação dele: "só isso? Uma caixa comes logo na primeira noite..." - o pior é que tem razão...).

Conversas por sms (V)

"e então? os nossos 2 kilos de açucar?"

(Não sou a única em estado de deslumbramento...)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Momento (CLXXXII)

Ver a cara do nosso filho naquele ecrã a preto e branco. Ok, isto está um bocado romantizado, porque na verdade mais parecia uma caveira bolachuda, mas é ele, é a cara que vou beijar daqui a um mês e meio, a mão que não vou querer largar até ao último dos meus dias, a materialização dos dois kilos (?!?!) de gente que não vejo mas sinto em cada murro e pontapé que levo.
Ele tem uma cara. Rechonchuda. Tem olhos, e nariz, e orelhas. Eu sei que isto é básico, tão evidente, é claro que o puto tem uma cara, mas é um ser humano completo que está a crescer aqui dentro! Eu olho para a minha barriga redonda e tento imaginá-lo, o tamanho que terá, os braços e as pernas, os movimentos. E hoje vi-lhe a boca a mexer, a chuchar. A mão a tentar esconder os olhos. As bochechas (aquelas bochechas, meu Deus...) que hei-de encher de festas e cheirar até à exaustão (dele, evidentemente).
E não sou capaz de deixar de me maravilhar com o milagre que estou a viver.

É sempre bom saber...

Uma das actividades da formação de Saúde, Higiene e Segurança no Trabalho desta manhã, era escrevermos "nas costas" dos nossos colegas uma característica que os definisse (fiquei sem perceber o que é que uma coisa tem a ver com a outra, mas enfim...).
É engraçado (e muito útil) ter a percepção da imagem que têm de nós.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Momento (CLXXXI)

A maioria das pessoas acha isto tão banal que nem vale a pena ser mencionado. São capazes de ter razão, é só mais uma tarefa a desempenhar antes de a vida como a conheci deixar de existir para sempre (já me estou a habituar, o corpo humano é uma máquina fabulosa que já me está a preparar para acordar de 2 em 2 horas, e para não conseguir estar deitada a partir das 7 ou 8 da manhã, mesmo ao fim de semana... já me convenci que só volto a dormir até ao meio dia quando o puto fôr para a faculdade...). Mas enquanto pendurava, perfeitamente alinhados nos arames, as fraldas de pano, as toalhas e mantas, os lençóis cosidos pela avó, os babygrows minúsculos e as meias microscópicas, comovi-me a pensar no quanto tinha esperado e ansiado por este momento tão banal.
Pela primeira vez, há roupa de bebé pendurada no nosso estendal.

domingo, 20 de maio de 2012

Crescer

7 meses e 1 semana. Crescemos de dia para dia com a mesma cadência frenética com que vejo diminuir o tempo que falta para o ter nos meus braços.


domingo, 13 de maio de 2012

Momentos (tantos, todos...)

Muita família, muitos amigos, pouco descanso, tudo ao molho, tantos momentos dignos de memória.
Começou na 6ª feira, com um lanche de bifanas e caracóis na melhor tasca da zona e na melhor companhia, que se prolongou até à meia-noite com moelas e pica-pau. Foi preciso a Paula vir lá do Alentejo para nos juntarmos outra vez, a P. e o N com as pequenas princesas, as conversas non-sense, a vida do dia a dia contada com todos os seus pormenores anedóticos, afinal é isso que fica, o que nos faz rir. Ter ali à mão os amigos que nos acompanham há quase dez anos, retomar os assuntos como se os tivessemos interrompido ontem, mesmo que já não nos víssemos há meses, dá-me uma sensação de conforto e segurança sem descrição possível. Naquele momento (como em muitos outros já vividos com eles), a frase "Os amigos são a família que escolhemos" fez todo o sentido. 
O almoço de sábado organizado pela mãe (agora habituou-se a convidar meio mundo para casa dela, e não quer outra coisa). Conhecer o meu primo (em segundo grau, isto agora começa a ser uma confusão de parentescos...) R.F. de quatro meses, redondo, maciço, simpático e bonacheirão, que correu os colos todos na maior alegria até chegar ao meu, onde começou a chorar. Disseram-me que foi por ter um menino na barriga (a competição começa cedo...). Rever o meu padrinho, que não via desde o funeral do pai (como é que já passaram dois anos?). Está muito mais magro, mas se há algum problema, ele não quis dizer, e também não insisti num dia cheio de sorrisos. O que devia ter sido um almoço rápido prolongou-se até às sete da tarde, com muita conversa (quase tudo sobre as  "maravilhas" da maternidade, as descobertas diárias e a vivência com um novo ser humano, que está agora a aprender a comer papa - coisa linda de ver, ele a tentar chuchar na colher, a cuspir metade, e a ficar furioso porque aquilo lhe estava a dar muito trabalho) e a mente a registar cada gesto, cada reacção, e a imaginar que dentro de pouco tempo (como é que só faltam dois meses?) serei eu a dar-lhe beijos, será ele a fazer-lhe cócegas na barriga, será o nosso filho ao nosso colo, o centro das atenções, o foco de todos os mimos.
Passar um serão a conversar com a R. sem adormecer a meio (só isto já é um feito admirável). Ter pena dos gatos meiguinhos que só querem saltar para o nosso colo e pedir atenção, porque de cada vez que lá vou eles são obrigados a sair do seu canto (eu já lhes prometi que assim que puder, os encho de festas para compensar...).
O almoço de domingo em casa do B. e da A., casa cheia de cor e num estado de agitação permanente, ou não fosse habitada por três crianças, a mais nova com um mês e meio. Mais conversa, muitas dicas de quem já passou por isto tudo (três vezes), e nos vai ensinando tanto, alertando para as manhas e contando episódios caricatos. Brincar com a M. e o Z. Videos da Heidi e balões pelo ar. Falar sobre o dia previsto para o nascimento do Peter Pan e de como achamos que não vai chegar às 40 semanas. O B. abre um calendário e "escolhemos" uma data. Sexta-feira 13. Sempre gostei das sextas-feiras 13. Para mim são dias de sorte. Mas o pacote de açucar de pouco mais de um kilo, que se mexe descontroladamente dentro da minha barriga como se estivesse a apanhar choques eléctricos (mas só quando ninguém está a prestar atenção, porque assim que fixo o olhar na barriga, ele pára - parece mentira, mas não é...) é que vai decidir quando quer nascer (só peço que esperes até às 38 semanas, filho, deixa-te estar sossegadinho aí dentro...). Arrancar a A. de casa para uma hora de compras, roupas de bebé, pois claro, mas uma lufada de ar fresco para uma recém-mãe que também precisa de (e merece) um pouco de distracção.
30 semanas. 7 meses completos. "Festejados" de forma simples e calorosa. Rodeada (rodeados) de pessoas que gostam de nós.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

O amor é (muito mais do que) f%$&#&

“Voltámos para casa anteontem [sexta-feira], nesse dia sagrado. Não há no mundo maior delícia do que a normalidade. Cada palavra da Maria João soa-me a música amada. Nos livros avisam que a remoção de tumores cancerosos do cérebro pode provocar alterações de personalidade.
Eu tinha medo que ela deixasse de ser a Maria João que eu amo. Mais medo ainda tinha que ela deixasse de me amar. A primeira vez que a vi, poucas horas depois da cirurgia, no remanso dos cuidados intensivos, perguntei-lhe se ela me reconhecia. E ela recuou a cabeça ligada, fez uns olhos de surpresa repugnante e perguntou, com convencimento: “Mas quem é o senhor?”
Nem sequer foi o sentido de humor a primeira coisa a regressar. Nunca se foi embora. A Maria João não recuperou: manteve-se. O milagre não lhe era exterior. O milagre é ela. Ela e todas as pessoas de quem ela gosta, que gostam dela.
Eu bem que tento guardá-la como um segredo. Mas só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la. Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal. Mas que é um mundo que ainda contém a Maria João, a pessoa que eu amo, que ainda aceita o amor que lhe tenho. Que cresce, ao contrário do cabrão do cancro, previsivelmente, certamente, sem fazer mal; fazendo bem.
Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!”

Por: Miguel Esteves Cardoso

domingo, 6 de maio de 2012

Cumprir a tradição (VI)















 

(As primeiras 11 fotos são dele, as outras são minhas).