domingo, 28 de fevereiro de 2016

Momentos (CCXXI)

Consigo arrancar-te de casa depois de te subornar com uma sombrinha gigante de chocolate. Vamos espreitar uma loja nova e compramos uns carimbos de esponja giros para fazer pinturas. Paramos numa esplanada para beber um café ao sol, seguimos para o parque e brincamos na casinha e no escorrega, tiramos fotos e faço-te cócegas. Vamos buscar o pai, que traz pão e a tua bicicleta, seguimos para o Jardim das Rosas, damos bocadinhos de pão aos patos e podes andar de bicicleta à vontade. Ficas curioso com as bancas da Feira de Velharias que se estende ao longo da avenida, seguimos devagar pelo meio das pessoas, tu na tua bicicleta a distraíres-te a cada segundo com objetos que nunca tinhas visto, nós a avisar "direita, agora em frente, agora esquerda.." perante os sorrisos de quem passava e achava(-te) graça. No fim da rua um dos teus restaurantes preferidos, entramos para almoçar, comes batatas fritas deliciado por ser algo tão raro, e vejo-te pela primeira vez a usar os pauzinhos, com genuína surpresa e ainda mais orgulho por estares tão crescido e independente. Voltamos a percorrer a feira devagar enquanto apontas para os montes de brinquedos ou espadas enferrujadas, um piano ou garrafas de Coca-Cola e Sumol vazias. Adormeces no carro a caminho da outra feira, a das esculturas de balões e carrósseis, para onde olhas fascinado pelos movimentos, mas ainda não quiseste andar. Andas de bicicleta no meio da multidão e és feliz no meio de tanta confusão. Regressamos a casa com um saco de pão com chouriço e pão com farinheira para o lanche, fazes uma birra de sono descomunal "quero um peluche do Minion!!!" até te pegar ao colo e aninhar nos meus braços, até te enroscares no meu abraço e acabarmos assim um dia que não tinha planos, mas que foi cheio e te fez tão feliz.

(E eu sou feliz com o teu sorriso).








quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Mais do que olhar (IV)

(Fascina-me a forma como as londrinas usam o eyeliner. Adoro o hábito que eles têm de andar sempre com um copo de café ou chá na mão, nas ruas, no metro, em todo o lado... E Londres cheira sempre a comida. )




















Momento (CCXIX)

Ouvir o meu amor pequenino a cantar-me os parabéns ao telefone, e a dizer que quando eu voltar vamos comer um "bolo de menina".

Fazer anos *

"Não é fácil. É confuso. Até as ideias para escrever sobre isto vêm confusas, aos bocados. A ver se vocês me entendem.
Não sou nova, mas também não sou velha. Estou bem a meio da minha provável linha de vida, desta é que é - 74 anos?
Os 30 são os novos 20, ma non troppo. Gostamos de pensar que ainda somos umas adolescentes por dentro, umas adultas a medo, mas as contas da casa já se pagam há anos. Já equilibramos há muito tempo trabalho, casa, marido, filhos, um prato e pauzinho que se junta ao malabarismo a cada par de anos que passa, como se fossemos umas equilibristas do Circo Chen.
Ainda somos giraças e piropáveis, mas a nossa pele já é de repente tão fininha! E os dois últimos quilos da segunda gravidez entram e saem, a moer-nos a cabeça e a encher o saco. O nosso corpo já não é o que era, por muitas maratonas que corramos atrás da juventude perdida. Ficou algures entre as noitadas de cólicas e a reunião das 17 horas. Oh, well.
Quantas vezes não esbarramos algures entre os trinta com muros no nosso trabalho, aquele que tanto nos ocupava e orgulhava aos vinte e muitos. Ou muros no nosso amor, aquele que jurámos eterno. Muros que erguemos ou que se ergueram. Ou vai ou racha, às vezes ficamos, às vezes damos o salto, pela nossa família, pelos nossos projectos, porque alguma coisa nos atirou para onde não queríamos estar e nós nadamos, porque energia falta-nos mas estamina é o que mais temos. Somos corredoras de fundo. Aos trinta corremos para todo o lado e por todas as causas, as dos outros e às vezes as nossas. Vemos que a vida não é uma estrada de alcatrão, é antes um trail lindo e sinuoso, com paisagens arrebatadoras e rios sem ponte para atravessar. E atravessamos.
As brancas atormentam-nos, essas filhas da mãe que não lhes bastava serem brancas ainda são mutantes, grossas e todas retorcidas. É assim envelhecer? Mudamos, engrossamos e retorcemos? Seremos mais sábias ou mais lúcidas? Somos mais seguras de quem queremos ser, com todas as nossas contradições. Aceitamo-las e elas fazem-nos pensar, agustiar, por vezes mudar, mas não nos fazem parar.
Aos trinta e muitos a nossa vida é nossa, mesmo que às vezes pareça que a estamos a viver pelos outros. Não estamos, os outros somos nós. E isso preenche-nos porque aos trinta sabemos que o mais importante é o nosso coração, são as nossas paixões, os nossos amores. Sabemos quem queremos e quem não queremos na nossa vida e lutamos por isso. Pelos afectos. O importante são os afectos.
Já passei os 30, os 35, estou a meio caminho para os 40. É um crescendo que mete medo, mas ao mesmo tempo traz muita força. Sinto-me profundamente feliz e grata por quem tenho ao meu lado, pela minha rede de afectos. Por querer envelhecer ao lado do meu amor e ver crescer os meus amores. Eu, mãe. Eu, mulher.


* Porque me revejo em cada palavra....

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Borboletas no estômago*



One Republic
"Ordinary Human"
(The Giver OST)

* E Londres à minha espera

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Fazer pensar



E se não houvesse cores? E se não houvesse emoções? Nem música? Ou poesia? Se ninguém soubesse o que é um livro? Nem tivesse de tomar nenhuma decisão sobre o rumo da sua vida? E se ninguém sentisse tristeza, nem dor emocional, nem ódio? Mas também não sentisse alegria, comoção, amor?

(Acabei a manta que estava fechada num cesto desde que a mãe faleceu. Porque cada quadrado de lã, feito por ela com toda a dedicação, tinha ainda a imagem das suas mãos e a memória do que perdi. Acabei a manta e senti-me vazia. Já não tinha nada para ocupar os dedos e serenar a mente nas noites solitárias. Senti saudades de ver filmes. De viver outras vidas, ver outros lugares, ouvir bandas sonoras e citações que insistem em não me largar por dias a fio. Comecei pelo The Giver - O Dador de Mémórias. Foi sem querer. Mas foi tão apropriado.)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Com uma vénia (XXI)

"gosto de viver apaixonado. é tramado, às vezes complica, mas é a única forma de fazer valer a pena cada hora do dia. sou apaixonado pelas pequenas coisas da vida: aquele nascer do sol na janela, o cheiro do café da manhã, as gotas da chuva no vidro do carro, a imagem da ponte com o mar ao fundo, a música alto e eu a assobiar, a música baixo e eu a olhar-te. gosto de treinar os sentidos para estarem todos alerta, todos a apanhar os pequenos momentos que fazem um dia sempre diferente, sempre qualquer coisa mais bonita, mais doce, mais salgada. mais intensa. é isso que é viver apaixonado: é ser intenso. é ser sempre mais..

complica? muito. dá trabalho? porra, se dá. mas é tão bom. e é simples - é uma questão de gestão. é saber equilibrar uma vida entre a responsabilidade, os compromissos, a brincadeira, a parvoíce, o amor estável e forte, e a paixão, louca e bipolar. viver apaixonado não é andar sempre nas nuvens. pelo contrário, é andar bem assente na terra, mas todos os dias, no mais pequeno detalhe, sentir aquela emoção, e viajar, nem que seja por segundos, ao mais longe dos destinos. irritam-me as pessoas que baseiam a vida apenas no racional. ficam previsíveis, monótonas, sisudas, mesmo no maior sorriso - porque é lógico. e eu gosto mais dos risos puros, sem lógica, sem motivo aparente, só porque sim, só porque do meio do nada veio aquele aperto no peito, aquela vontade de rir, seja do nervoso do momento, da emoção, ou apenas do toque de um olhar que se cruza em nós. 

porque bom mesmo é viver apaixonado por alguém. primeiro pela pessoa que somos. às vezes erramos, às vezes distraímo-nos, mas saber sempre que gostamos do que somos. e do que fazemos acontecer nos outros. depois, ser apaixonados pelos filhos. são tão mais bonitas as pessoas que vivem apaixonadas pelos seus. emocionam-me. como tu. e acredita, bom mesmo é viver apaixonado por ti. chega a ser irritante dizer-te sempre que te vejo: 'estás linda!'. mas porque estás verdadeiramente. pelo menos aos meus olhos. sabes, a voz embargada quando te digo que te amo, depois de acordar contigo, é pelo espanto, cada dia sempre novo, de como é bom sentir-te. como se o peito tivesse sempre um pouco mais cheio, um pouco mais feliz. sempre um bocado mais. é isso que somos: sempre mais. é isso que me embarga o amo't. e é tão bom.."

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Enamorar(-me) sempre

Ver o meu filho a comer é das imagens mais bonitas que tenho. Perco-me a observar-lhe os gestos, os olhares, as expressões faciais tão pronunciadas de cada estado de espírito (mesmo daqueles que me levam ao limite da paciência humana).
Sentir o calor dele quando se vem enroscar em mim depois da sesta, e ficamos assim, deitados frente a frente, as mãos macias a segurar-me a cara e os olhos atentos fixos nos meus.
Saborear-lhe as bochechas fofas em mil beijos que ele (ainda) aceita deliciado enquanto me aperta o pescoço num abraço de mimo.
Cheirar-lhe a pele doce de menino anjo enquanto dorme sereno, e pedir a deus para que o seu sono seja sempre assim.
Ouvir-lhe as gargalhadas puras e inocentes enquanto dançamos (aos saltos...) no tapete da sala, e sentir o coração a insuflar no peito; escutar as canções que passa o dia a cantarolar e que me deixam sempre a sorrir, tanto como a voz grossa com que dá ordens como se fosse um general na frente de um pelotão.
Dar-lhe colo, sempre. Dizer que é o meu amor pequenino, todos os dias.
Querer que ele saiba que foi a maior benção que a vida me deu, que me tornou completa e serena, que me deu paz.  Estar presente e ser feliz, para lhe dar o exemplo vivido que o guiará, para que se sinta protegido e amado em todos os momentos, e para que tenha como verdade inabalável a certeza do meu apoio incondicional e do meu amor mais puro.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Picking up the pieces *

Esteve esquecida dentro de um cesto durante mais de um ano. O tempo que demorou a fazer as pazes com quem tricotou todos aqueles quadrados de lã, com a mesma dedicação que punha em tudo o que fazia para mim. O tempo que demorou a aceitar. A juntar todos os quadrados como quem junta de novo todos os bocadinhos de um coração dorido. Para criar finalmente a manta de retalhos mais imperfeita e sinuosa, mas ao mesmo tempo a mais quente e forte, de todas as que já fiz.

* (Acho que é a isto que chamam "reerguer-se"...)




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Embalar(-me) (XLII)



Selah Sue feat. Ronny Mosuse
"Ain't No Sunshine "

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Agridoce (II)




Voltar à tua Serra será sempre um equilíbrio frágil entre o deslumbre da paisagem que me faz sentir pequena e as saudades do teu sorriso que me fazem sentir minúscula. Não preciso de me ajoelhar aos pés da campa, como fiz hoje, para sentir a falta que me fazem. Falo convosco quando quero e preciso (tantas vezes, ironicamente, quando estou a fumar um cigarro à janela, sabendo o quanto este meu vício vos deve moer...)
Senti a tua presença em cada rajada de vento gélido que me empurrava, e o teu respeito pela Serra em cada gota de chuva grossa que me batia na cara. A natureza no seu estado mais bruto e selvagem, a recordar-me que não é possível controlar tudo. E que a vida (tal como a natureza) se encarrega sempre de seguir o seu rumo.