quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Conversas ao jantar (IV)

- Algum dia ainda me vou sentir atraído por uma velhota destas - diz ele, a apontar para uma foto de duas senhoras de cabelo branco, com cerca de 70 anos, num artigo sobre voluntariado sénior.
- Tás à espera que eu morra antes, certo?!
- Não. Acho que há uma idade para tudo. Agora, por exemplo, já não me sinto atraído por pitas (dito em versão "olhar não faz mal"). Por isso um dia é natural que olhe para uma mulher destas e fique a pensar "Chupava-te os óculos todos!!"
- Ou seja, vais ser um velho rebarbado!!!
(Não há pachorra!!)

Politicamente correcto

Porque é que eu fico a sentir-me mal quando sou a primeira a sair do trabalho, mesmo que já tenha passado da hora?
Porque é que toda a gente faz questão de ficar a fazer tempo, para sair uns politicamente correctos 20 minutos depois do estabelecido? Porque parece bem?
Tenho um trabalho de escritório, com um horário pré-definido que chega perfeitamente para cumprir as minhas funções, fico até mais tarde quando tenho de acabar alguma proposta ou outra treta qualquer que o boss se lembra de pedir à última da hora.
Se tenho de chegar a horas (e pico o ponto para confirmá-lo) e se não me pagam horas extraordinárias (mesmo quando fico numa reunião até às 8 da noite), não me sinto na obrigação de ficar para parecer bem.
Tenho plena consciência que toda a gente evita ser a primeira a abandonar o posto, como se isso fosse imagem de desleixo, não querer saber do trabalho, sei lá.
A eterna dúvida sobre escolher a vida ou a carreira, para mim tem uma resposta fácil: trabalho não só porque preciso do dinheiro, mas porque gosto de estar ocupada, e se ficasse em casa dava em louca. E gosto do trabalho que faço, que me permite o contacto com muitas pessoas, da Polónia a Macau, do Canadá a França. Mas trabalho 8 horas por dia, ponto. Não tenho uma carreira, e também não a quero se isso implicar roubar tempo a tudo o que gosto de fazer fora daquelas quatro paredes.
Mas continuo a sentir-me mal quando sou a primeira a sair.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A terra da avó

Ao ler este post recordei-me da terra da minha avó, onde passei os melhores momentos da minha infância. Desde que me conheço como gente, que as férias grandes eram passadas ali, entre galinhas e pavões, tomateiros e laranjeiras.
Lembro-me da matança do porco na eira (agora nem isso se pode fazer, a ASAE não deixa), e de como ficava aterrorizada com os grunhidos de dor do animal.
De tomarmos banho no tanque, que na altura nos parecia uma piscina olímpica, e de aproveitarmos para lavar os cães também (um dia o meu primo mais novo lembrou-se de fazer o mesmo aos gatinhos recém-nascidos). De fugir dos patos-bravos, aos saltos depois de serem degolados pela minha avó.
Lembro-me de andarmos (eu e o meu irmão, na altura com 6 e 5 anos) a ajudar(?) a semear o milho, e a minha avó a meter as mãos à cabeça e a rogar-nos pragas pelos punhados que despejávamos em cada buraco (mais tarde chegou a dizer-nos que nunca teve milheirais tão bons como aqueles). Das tigeladas que ela fazia (divinamente) no forno a lenha. De almoçarmos na eira, debaixo do chorão grande.
Lembro-me de ter sido muito feliz na terra da minha avó.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Livros

"A partir do momento em que aprendi a ler, nunca mais me senti sozinha."
A frase não é minha (foi dita pela primeira dama Maria Cavaco Silva, em entrevista a Alice Vieira para a última edição da Activa) mas podia muito bem ser.
Leio de tudo, de sonetos de Florbela Espanca a Gabriel Garcia Marquez, de Eça de Queirós (adorei "Os Maias", anos depois de ter sido obrigada a lê-lo na escola) a Paulo Coelho, de José Eduardo Agualusa a Gao Xingjian (se bem que ainda não acabei "A Montanha da Alma", não ando com espírito).
Gosto de livros que me levem para outras realidades, que me mostrem um mundo que não é o meu, mesmo que não seja o mundo de ninguém. Também gosto de livros com sentimento, histórias de amor (não confundir com romances de cordel, para esses não há pachorra), não necessariamente de romance e com final feliz.
O livros fazem-me companhia, não só o que ando a ler, mas todos os outros que estão adormecidos nas estantes, alguns já lidos, outros à espera da sua vez de serem tocados, abertos e explorados. Depois há os preferidos, guardados religiosamente num armário com portas de vidro, para estarem mais protegidos, porque a qualquer momento são resgatados, vezes sem conta, não para voltar a lê-los do início, mas para lembrar as passagens que ficaram marcadas, porque me marcaram.
É uma sensação fantástica, pegar num livro novo, passar os dedos pela capa, abri-lo, sentir o cheiro do papel, ler o primeiro parágrafo. Logo aí percebo se vou gostar dele ou não. Se ele me conseguiu cativar imediatamente ou se vai ter de se esforçar um pouco para me manter interessada. E depois não pára quieto: do quarto para a sala, da sala para a casa de banho, do quarto para dentro da minha mala.
Quantas vezes saímos para beber café ou lanchar numa esplanada ao pé do rio, e cada um leva o seu livro. Não que não nos interesse a companhia do outro, ou que não tenhamos assunto para falar. É uma paixão que partilhamos, que vamos compartilhando à medida que avança a história. Frases trocadas que ficam na memória, que fazem pensar, que arrancam um sorriso dos lábios.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

No dia em que fiz 30 anos...

... vi o mar.
... bebi caipirinhas.
... jantei às 11 da noite no Malagueta.
... ouvi a pergunta "E se agora saísses à rua, e estivesse a chover pétalas de rosas, vermelho tinto?"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Inquietação

Começou a meio da manhã, uma sensação de desconforto quase imperceptível; um grão no estômago, que não se sente, mas pressente-se. Foi aumentando, devagar, até se fazer notada, mas discreta. E por cá continua, uma inquietação que não consigo definir ou explicar. Ou não quero.
Porque não quero voltar a bater nas mesmas teclas, a dizer as mesmas palavras. Hoje não.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Conversas ao jantar (III)

- Então, tás nervosa com a chegada dos 30?
- Não, já te tinha dito, não é a idade que me incomoda, é o que eu ainda não fiz, os planos não concretizados.
- Mas nesse caso, é só um.
- Não é, não. Quero ter um cão e ainda não tenho; quero ter um carro melhor, que dê para olhar para ele e gostar do que vejo; quero ter uma casa com um alpendre grande...
-$%&#$%&, isso já é muita merda junta!! - diz-me ele com um sorriso na cara.

Momento (III)

... quando uma amiga me diz "Com esse vestido pareces uma bonequinha".
Digam o que disserem, é tão bom ouvir um elogio.

Julgamentos

Já recebi 2 comentários aqui na minha vida escrita. Não sei se isso me deixa feliz ou preocupada.
A verdade é que só disse a duas pessoas que tinha o blog (não contando com ele, que finge não saber), e essas preferem comentar para o meu mail.
Um dos comentários foi de cortesia, da autora de um dos meus favoritos, que alegra o meu dia sempre com cores diferentes, o que eu já fiz questão de lhe dizer. O outro não faço a mínima ideia como é que veio cá parar.
É um pouco estranho saber que pessoas que não conheço, nunca vi, sabem mais da minha vida do que eu sei delas. Que sabem mais da minha vida do que algumas das pessoas que me conhecem. Já ouvi alguém dizer "se tiveres de desabafar, que seja com um estranho, de preferência com um que não vás voltar a ver na vida, assim não tens medo dos julgamentos". Mas desabafar é uma coisa, gravar tudo por escrito é um pouco diferente.
Sempre acreditei que com um nome destes o pessoal só viría aqui por engano, e quando percebessem que isto não é um blog pornográfico, íam embora. Nunca me preocupei muito com a forma como escrevo (erros ortográficos é que não), tal como ele me disse um dia "o segredo é escreveres como pensas", sem parar para analisar se as palavras são as mais adequadas, ou se a construção da frase está correcta. Sem parar para fazer julgamentos.
E assim tem sido. E assim vai continuar a ser.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O meu protector

Fico sempre com um sorriso de orelha a orelha quando falo com ele, faz-me sempre rir, um riso que fica mesmo depois de desligar o telefone.
O meu irmão é o outro homem da minha vida. Não desvalorizando o meu pai, claro, para quem eu sou e serei sempre a menina.
Mas adoro o meu irmão, com um amor e um carinho imensos. Faz-me confusão ouvir histórias de irmãos que não se falam há anos, ou pior, que deram um tiro no outro por causa de um bocado de terreno. Não consigo compreender as razões para tal. Não consigo imaginar o que o meu irmão podería fazer de tão atroz que me fizesse deixar de falar com ele, muito menos de amá-lo. Porque não o imagino a fazer algo assim.
Num corpo maciço de 90 kilos (conseguido com trabalho pesado- e não estou a falar de ginásio) vejo um puto (para mim será sempre um puto, apesar de só ter menos um ano) sensível e atencioso, generoso e leal, sincero e preocupado com os outros, que se esconde por trás de uma capa de despreocupação, boa vida e palhaçada. Porque ao pé dele todos têm de estar a rir. Ele encarrega-se disso. Quantas vezes como forma de se obrigar a si mesmo a rir.
Tenho pena de não estar mais perto dele. Acho que lhe faço falta. Acho que ele às vezes precisava de falar, e não tem com quem. Tem muitos amigos, é verdade, mas amigos para os copos, amigos para as noitadas, amigos que só conhecem o N. porreiraço, sempre bem disposto. Porque é essa a imagem que ele mantém a todo o custo.
Eu conheço o outro N.. O que nunca se recompôs por ter perdido o primeiro amor. O que me chama "nina" com ternura (é a única pessoa que me chama assim). O que escolhe criteriosamente os sítios onde me leva à noite, porque "aquele não é sítio para ti". O que numa discoteca está sempre alerta, para afastar qualquer pintas que me esteja a incomodar.
Lembro-me quando fomos à Expo98 (foi há 10 anos...já foi há 10 anos... é triste dizer isto) eu com os dois homens da minha vida, num dos dias mais memoráveis até hoje. Não tanto pela exposição em si, a qual já só recordo no album de fotografias, mas pela experiência vivida, essa bem presente na memória. Um dia que foi só nosso, com um entendimento perfeito, com uma descontracção imensa, uma curiosidade de absorver tudo, e uma vontade de gozar com tudo, próprias dos nossos 20 anos.
A meio da tarde, eles entraram num pavilhão (não me lembro qual) e eu fiquei cá fora a fumar um cigarro (em 10 anos, o vício é o mesmo). Quando saíram, viram um rapaz inglês que tinha parado para me pedir indicações, a ir-se embora. O meu irmão apressa o passo para me vir perguntar "quem era aquele?", com ar de "parto-lhe a tromba toda!!", enquanto o meu namorado ficou impávido e sereno.
Ainda hoje sorrio ao recordar aquela atitude, pois foi sempre essa a postura do meu irmão em relação a mim: protectora. Ele é o meu protector, e se dependesse dele nada de mal me acontecia na vida, porque primeiro tinha de passar por cima dele.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Espero mais

- Estavas a apanhar seca? - pergunta-me ele, quando entrámos no carro depois de eu ter pedido para virmos embora no final de um almoço de família e amigos (da família).
- Não era bem seca, mas não estava à vontade. Nem eu nem ninguém que ali estava. Se fosse em casa do teu pai, estava tudo bem, mas assim não.

A verdade é que todo este tempo, o almoço e metade da tarde, não acrescentou nada à minha vida. Não tive nenhuma conversa interessante, não aprendi nada de novo, não tive um momento de felicidade, um momento que me fizesse sorrir. Enquanto bebíamos café eu só conseguia pensar "O que é que eu estou aqui a fazer?"
E cada vez dou mais importância a isso. Cada vez estou menos disposta a fazer algo que não acrescente nada ao meu dia.
Como lhe disse há algum tempo, quando ele quis que eu fosse ver uma exposição de motos "Já não tenho idade para fazer fretes!" E não está em causa a idade propriamente dita (30 anos... porra), mas sim uma noção mais apurada do que me faz feliz, do que deve ser repetido até se tornar ritual; do que deve ser evitado por ser uma perda de tempo. E eu começo a achar que não tenho tempo a perder...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Arrepiante

Não gosto de fado, mas a voz dela arrepia-me (no bom sentido)...

Mariza
"Gente da minha terra"
Live at Lisbon

Normalidade

Nós não somos normais. Nós não temos uma relação normal.
Depois do que se passou ontem (e de eu estar a pé às 6 da manhã com insónias por causa disso) era de esperar uma discussão, uma troca de palavras mais feia, pratos a voar pela janela e os porquinhos a guinchar de medo. Mas não. Nem uma sessão de asneirada, nem sequer uns gritos para animar as hostes.
Logo de manhã recebo no telemóvel uma foto de um cachorrinho branco com olhos tristes. Sem mensagem, só a foto, porque uma imagem vale mais que mil palavras (e porque as palavras custam a dizer). Depois recebe-me com o mesmo sorriso de sempre.
- Então já te passou?
- O quê? A bebedeira? Já.
- Sabes que estragaste uma noite que estava a ser muito porreira? E que me magoaste? Porque é que tiveste aquela reacção?
- Porque feriste o meu orgulho.
A resposta já a sabia, e sinceramente não estava à espera de mais. Definitivamente não estava à espera de um pedido de desculpas. Ele é um homem maravilhoso, mas não deixa de ser um homem, e pedir desculpas sería contranatura.

Por isto é que acho que não somos um casal normal. Não discutimos. Não gritamos (também não temos sexo pós-discussão, que dizem ser um espectáculo). Resolvemos todos os problemas com diálogo, conseguimos verbalizar o que sentimos, o que nos chateia, e não guardamos rancor. No máximo afastamo-nos, ficamos sem falar um com o outro, mas também isso passa ao fim de um ou dois dias (nunca mais).
Foi ele que me ensinou a não guardar tudo cá dentro. A não amuar (faz o que eu digo, não faças o que eu faço!). A não esperar que ele adivinhasse os meus pensamentos. E esse ensinamento tirou-me um peso de cima, tornou a minha (nossa) vida muito mais fácil e simples. Se não quero ir, digo. Se não gostei da forma como ele falou com uma gaja qualquer, digo. Se me apetece um gelado, um filme, que ele me deixe em paz... digo. É tão simples.

A culpa é minha?

O que era para ter sido uma noite porreira não foi. Quer dizer, até foi, só não acabou como eu esperava. Depois de receber um prato de rosas vermelhas com uma caixa de Ferrero Rocher (que só percebi que não fazia parte da decoração do dito prato dourado quando ele me perguntou "Então não abriste a caixa?"), de um jantar de marisco e vinho branco com 13º, só podia esperar uma coisa.
Mas eis que ele insiste em levar o carro. Ao despedirmo-nos no restaurante, o senhor J. pergunta-me "A menina tem carta, não tem? Senão eu posso ir lá pô-los". Eu descanso-o, sim tenho carta, está tudo bem.
Mas ele insiste em levar o carro. E eu recuso-me a entrar, fico em pé no estacionamento, 10 minutos, pacientemente a pedir-lhe "Deixa-me levar o carro, eu sei que tu consegues, mas hoje não", até que ele desiste, sai do lugar do condutor e entra...para o banco de trás, qual puto de 8 anos amuado!! E É QUE AMUOU MESMO. FEZ BIRRA. PRENDEU O BURRO e não disse uma palavra o resto da noite, literalmente. Nem resposta ao meu "Dorme bem", quando finalmente me fui deitar... sozinha.

Porque é que os homens (e algumas mulheres também) não são capazes de admitir que já beberam de mais e que não estão a 100% para conduzir? Porque é que lhes custa tanto passar a chave do carro, e dizer "Toma, leva tu"? ESTÚPIDOS.

E assim se estragou uma noite porreira, que estava a ser excelente, não por ser dia dos namorados (excepto as rosas, essas foram mesmo por causa do dia) mas porque a conversa ao jantar foi sobre afectos e os sorrisos foram de carinho, e estava tudo a correr tão bem.

Às 6 da manhã senti-o levantar, para voltar a deitar-se passados uns minutos. Tentei tocar-lhe, aninhar-me a ele. Afastou-se, evitou o toque. Este fim de semana vai ser muito longo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Valentine

"Continuação de bom dia de Valentine"
É o que dá ter clientes nos Estados Unidos, depois temos de ouvir estas baboseiras.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Sonhos

Costumo sonhar acordada... mais vezes do que é considerado normal. Basta uma música, uma cor, um cheiro, para eu ficar parada, de olhos no vazio e mente num tempo e espaço distantes, numa memória que ainda não aconteceu.
Durante muito tempo sonhei com o dia do meu casamento. O som do vestido de noiva a arrastar no chão, a lágrima ao canto do olho do meu pai a caminho do altar, os sorrisos dos amigos numa festa que sería inesquecível, não por ser pomposa, mas por ser cheia de significado e gestos de amor. Até finalmente me convencer que não ía casar.
Passei a sonhar (relembrar) gestos de carinho, palavras ditas, momentos passados mas não esquecidos, e sempre sonhados.
Ultimamente tenho sonhado com um filho... Tenho-o ao colo, sinto o seu corpinho muito quente contra o meu peito, cheiro na sua cabeça o maravilhoso perfume que só os bebés têm. Aconchego-o nos meus braços, e sei que ele se sente protegido, e é só isso que eu quero fazer, protegê-lo, manter num abraço aquele calor que me aquece o coração.
Ultimamente tenho sonhado muito... mais do que é normal...

"As estrelas...

... do mar sonham o mesmo que as estrelas do céu?"
dúvida roubada a Speak Corner

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Momento (II)

Saio do escritório, e do lado de fora da vedação do estacionamento vejo... um rebanho de ovelhas...
Vim o caminho todo até casa, com um sorriso nos lábios.

Mudanças (II)

Como (quase) tudo na vida, as coisas aqui no escritório não são tão más como eu as pintei, e depois da parvoeira inicial, estou a adaptar-me bem.
Passei de um escritório de animação e galhofa, com muita gente a falar ao mesmo tempo; para um ambiente mais calmo, onde prevalece a música do rádio, a tocar baixinho. E até me está a saber bem esta mudança, esta calmaria que parece estar a invadir toda a minha vida, desde os fins de semana em pantufas até a minha secretária, que está agora perfeitamente arrumada, com os papéis todos em ordem.
É certo que não tenho uma janela para o exterior, mas basta-me vir ao hall para ver a Serra D'Aire ao fundo, magnífica, pela parede envidraçada, que nós já apelidámos de Aquário (porque quem vê de fora, parece que está a ver peixes a andar de um lado para o outro).
A colega nova é porreira, tem a minha idade e é sossegadita como eu. Estamos quase sempre ao telefone ou em silêncio, mas não é um silêncio constrangedor, de quem quer dizer alguma coisa mas não sabe o quê. É um silêncio de concentração, de quem quer acabar o relatório ou a tabela a tempo, de quem precisa desse silêncio para fazer as coisas bem.
Agora estou bem.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A culpa é minha...

- Tu é que havias de estar assim!! Mas não, não ficas doente. E sabes porquê? Abres as janelas todas, fica uma ventania do caraças dentro de casa, mas como andas a correr de um lado para o outro, o vento não te apanha. Agora um gajo anda aqui descansado, e leva com a ventania toda!!
Quase que tenho pena dele, a arranhosar-se pela casa, com o nariz todo vermelho de tanto se assoar...
Tá constipado, e então? Agora a culpa é minha porque quis arejar a casa no fim de semana, e tive as janelas todas abertas.
Tenho um bocado a mania das limpezas, gosto de chegar a casa e vê-la minimamente limpa e arrumada, acredito que isso torna a minha vida mais harmoniosa e calma. E depois de uma semana toda fechada, gosto de deixar entrar ar fresco.
Tenho de começar a pô-lo fora de casa nessas alturas, assim arejo a casa e areja ele a cabeça!!

Pesca

Depois de ele ter passado a tarde na pesca com o N.:
- Então, apanhaste muito peixe?
- Eu não, ganharam os peixes. Por 20-0... ao intervalo... E depois é uma ganda confusão, há um fio flutuante e um fio afundante, há não sei quantos tipos de isco, e depois tens de calcular o vento e a corrente... Quando eu ía à pesca com o meu pai, não havia nada destas merdas. Será que os peixes evoluíram?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Não percebo...

... porque é que alguém cria um blog para escrever um ou dois posts, e depois nunca mais lá põe os pés? Ou pior, nem sequer escreve o primeiro post?
Andava à procura de cenas interessantes de pessoal daqui, e é mentira!! Só putos e pitas de 17 anos!! Ainda tive alguma esperança quando vi o blog Alminha Perdida, o nome prometia, mas a autora (porque só uma mulher escreve assim) só deixou dois posts.
Vou mas é dedicar-me aos que já conheço, são poucos mas bons.
Mas antes disso vou mas é dormir, que isto já não são horas de uma gaja com quase 30 anos estar acordada.

Sonhar

"Porque é que só sonhamos que vamos voar, quando somos crianças?"
In: Mr. Jones

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Vício

Entrei em casa e a primeira coisa que fiz foi ligar o computador.
- Não ías fumar cigarros? pergunta-me ele, com aquele ar de desdém por um vício que (ainda) não consegui abandonar.
- Já vou.
- Que vício, vê lá se queres que eu te ligue a net, para ficar a aquecer...
- Aprendi contigo.
- Aprendeste ou foste influenciada por mim?
- Aprendi, que os maus vícios aprendem-se...

Conversas ao jantar (II)

Num dos nossos restaurantes de eleição, pequeno, com uma música ambiente que soa sempre bem, acompanhados por um tinto Piornos Reserva. Um jantar excelente, não fosse a minha pequena crise de ai-que-estou-quase-a-fazer-trinta-anos.
- O que é que muda quando fazemos 30 anos?
- Não muda nada. - responde ele, do alto da sabedoria dos seus 33. - És a mesma com 30 anos que eras com 29.
Depois disse qualquer coisa sobre ficar mais adulto porque era o que a sociedade esperava ou, no caso dele, fingir que estava mais adulto (porque continua a ser o mesmo puto de sempre, e ainda bem).
- Vamos embora nesse fim de semana... Vamos para a Vieira, ficamos num hotel uma noite...
- Se é isso que tu queres, vamos.

Quase trinta

Começou hoje à tarde, quando a P. me perguntou "Então, onde é que vamos jantar no teu dia de anos?" Fez-se um plin qualquer cá dentro. "Pois é, tá quase"
Até agora não tinha pensado bem nisso, se bem que acho que não há diferença nenhuma entre o que sou com 29 anos e o que vou ser com 30. Não me faz confusão nenhuma, acho que vou ser uma trintona impecável...mas sem filhos. É isso que me está a moer por dentro, chegar aos 30 anos sem filhos. Não estava nos planos.
Mas se analisar bem foi a única coisa que falhou nos meus planos a longo prazo: tirar o curso, ter um emprego estável dentro da minha área de formação, ter casa própria com ele (casar deixou de fazer parte dos planos hà anos), e ter filhos.
Devia estar feliz por ter o plano praticamente todo concretizado, é uma forma de ver a questão. Então porque é que eu sinto um vazio cá dentro?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Parvoeira

Deu-me um ataque de choro à hora do almoço.
Senti-me sozinha, mesmo sozinha e isolada.
"Não gosto disto" desabafei com ele ao telemóvel, depois de engolir o almoço em 10 minutos porque estava sozinha e odeio tomar uma refeição sem companhia.
Também tive azar, a A. e a M.J. tiveram uma reunião que se atrasou, por isso os horários não coincidiram. Mas foi o suficiente para eu me sentir excluída e fazer logo um drama. Agora já consigo ver que foi mesmo parvoeira minha. A minha colega nova até me trouxe uma queijada de cenoura, "para eu me sentir melhor". Foi um gesto bonito.

Amanhã mudo de horário. O boss diz (e com razão) que não faz sentido entrarmos às 8 horas quando o resto do pessoal entra às 8 e meia. Assim, temos flexibilidade à hora do almoço, pode ser só meia hora (que chega perfeitamente, porque nem sequer há um café por perto para irmos espairecer) ou de 1 hora (quando encomendarmos pizza ou formos à sopa da pedra). Agrada-me bastante, levantar cedo sempre foi um martírio, por isso mais meia hora de sono vai ser excelente!!

Into the Wild

Vi(mos) ontem à noite.
Imagem excelente, textos escolhidos a dedo para cada cena, cada um com o um significado, um sentido específico a acompanhar a acção.
O que leva alguém a largar tudo? A repudiar tudo o que a maioria das pessoas ambiciona e considera como ideal de vida? O dinheiro, o conforto, uma carreira, uma família?
Não sei se tería essa coragem. Aliás, sei, sei que não tería essa coragem, não sou aventureira, não tenho ideias hippies de amor e uma cabana. Ma o que ele (a personagem do filme) procurava também não era o amor, mas só a liberdade, um ideal de liberdade que excluísse o conforto, o dinheiro e os outros. E conseguiu-o(?).
Mas será que essa liberdade pode trazer, só por si, a felicidade?
"A felicidade só é real se fôr partilhada".
Ele conseguiu ser livre, mas será que foi feliz?

Eddie Vedder
"Guaranteed"
Into the Wild OST

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Agi mal?

Quando alguém trata mal uma amiga nossa, não devemos dizer-lhe (à outra pessoa, não à amiga, porque essa já sabe como anda a ser tratada, e o único porto de abrigo que lhe resta somos nós)? Não devemos pelo menos mostrar que alguma coisa está mal, tratando essa pessoa de uma forma diferente, mais fria e distante, para que ela sinta um pouco do próprio veneno? E se essa pessoa ainda tiver a coragem de nos vir perguntar porque é que está a ser tratada de forma diferente, não devemos ser sinceros e explicar-lhe o porquê (frisando que não ouvimos queixinhas, mas sim atitudes que nós presenciámos)?
Apesar de isto parecer intrigas de liceu, é verdade e aconteceu com gajas de 30 anos. E continuo a achar que agi bem, apesar de ter sido criticada por ter sido demasiado directa.
Custou-me ver uma amiga, que trabalhou comigo durante 7 anos, ser recambiada para outro escritório (da mesma empresa, mas noutro local), onde lhe fizeram a vida negra, a ponto de ela chorar de cada vez que voltava a encontrar-se connosco. Custou-me saber que numa fase de mudança, em que ela ganhou responsabilidades novas e muito mais trabalho, não sentiu apoio de ninguém, e a única pessoa que estava lá não lhe deu uma palavra de compreensão, pelo contrário, tentava enterrá-la sempre que tinha oportunidade. Assim como foi ela podia ter sido eu.
Por isso continuo a achar que agi bem, e vou manter a minha distância enquanto não me esquecer. Não sou arrogante nem mal educada, digo bom dia e peço por favor. Sorrisos e pausas para café é que são escassos.

Sol

Enquanto espero pela chegada do comboio (já só falta meia hora) vou-me deliciando com o sol a bater-me na cara, da posição estratégica em que me coloquei para que o máximo de superfície possível ficasse longe da sombra.
Sempre adorei o sol, a luz e o calor, são essenciais para mim, acho mesmo que só funciono a luz solar!!
Não sei como há quem fique contente com chuva, nevoeiro e dias cinzentos. Sou capaz de gostar de um dia desses, se estiver em casa, de pijama, e com a certeza que não vou ter de sair. Assim está bem, admito que até é bom ir à janela e ver a chuva cair lá fora enquanto aperto mais o robe, para a seguir saltar de novo para a cama ou o sofá (depende se fôr manhã ou tarde). Mas o meu limite é um dia, mais do que isso já chateia.
Por isso hoje está-me a saber tão bem, o céu tão azul e o sol já a aquecer a alma (apesar do vento frio que me está a fustigar sem dó nem piedade).
Mais uma manhã de cores e sons e cheiros, antes de me enfiar num escritório sem janelas (não me consigo esquecer disto)!.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Mudanças

Vamos mudar para uns escritórios novos. Já andam a falar nisto há mais de um ano, mas agora é a sério.
E isso até não sería mau, não fosse o facto de eu ir mudar para uma sala sem janelas para a rua, e separada das minhas colegas (e amigas), com quem trabalho há 7 anos. Eu que vou compartilhar uma sala com uma gaja que não conheço de lado nenhum, nem quero conhecer!! Estou a ser drástica, a rapariga não me fez nada de mal (ainda, que eu já vou de pé atrás) e até parece ser simpática, mas porque raio é que eu tenho de ficar na mesma sala que ela?!
E porque é que eu não posso ter uma janela? Este escritório está no meio de uma quinta, e quando vim para cá, da minha janela via ovelhas a pastar. Entretanto as ovelhas foram vendidas, mas a relva e as laranjeiras ainda cá estão. O sol e a chuva também. É isso que eu estou a ver agora (bem, nem sol nem chuva, que o dia tá cinzento), ao olhar lá para fora, e que já não vou ver na 4ª feira.
Estou com medo de passar o dia todo sem ver a luz do dia (literalmente), medo da nova colega (se calhar ela pensa o mesmo de mim), medo de uma nova organização das coisas, que é sempre inevitável quando há mudanças.
Estou com medo desta mudança.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Quando fôr grande...

... quero ter um destes...

Faz-lhe falta

- Temos de sair do Entron.camento. Faz-me falta a terra...
- Faz-te falta é ver o rio todos os dias de manhã.
- Pois faz...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ninho

Sinto que estou a entrar numa fase mais calma, em que posso voltar-me para mim mesma, enrolar-me num casulo e fechar os olhos, e esperar. Apreciar os pequenos momentos de sossego, estar aconchegada num pijama quentinho a ler um livro, ou abraçada a ele a ver um filme.
Quando começámos a viver juntos, se ele preferia ficar em casa ao sábado ou domingo, eu ficava com uma neura insuportável. Não compreendia como é que ele podia querer andar a arrastar-se da cama para o sofá, e do sofá para o computador, enrolado no robe, se lá fora estava um dia lindo. E para mim dia lindo bastava não estar a chover!! Queria sempre ir dar uma volta a um jardim, a um parque, sentar-me numa esplanada, qualquer coisa para sair de casa. E ele, quantas vezes contrariado, lá se arrastava do seu belo sofá para a rua, só para não ver as minhas trombas.
Agora já o compreendo melhor, porque também me apetece ficar em casa, na nossa casa, no cantinho clean, confortável e acolhedor que juntos construímos, e para onde gostamos de voltar ao fim do dia. Os americanos já arranjaram um nome para isto (claro!): nesting, ou seja, ficar no ninho. Gosto da palavra e do que ela significa, um ninho protector, onde nada nos faz mal. É isso que é a nossa casa. Um ninho.

O caracol

- Onde é que está o caracol que encontraste na alface?
- Deitei-o fora.
Ele olha para mim como se eu fosse uma assassina.
- Não te preocupes, ele está num monte de talos de alface, deve estar todo contente da vida!
- Haviam de te deitar para o lixo, no meio de um monte de sapatos e malas do Luis 21, para ver se também gostavas!!

Ladie's Night

Não foi bem uma ladie's night, foi mais um ladie's dinner.
Acabámos por ser só quatro, mais a S. que chegou às 11 da noite.
Serviu para pôr toda a gente ao corrente do que se passa. Mais dos factos, dos sentimentos falei pouco.
Custa-me baixar as defesas e falar do que estou a sentir. Sinto que fico vulnerável e desprotegida. Por isso é que escrevo aqui o que não digo em conversas de café e jantares de amigas. Escrever é mais fácil, não vejo a cara de ninguém a olhar para mim.
Percebi que todas elas estavam realmente preocupadas comigo, e tentei explicar-lhes o porquê de não ter dito nada antes: porque não conseguia.

Sempre tive a paranóia de não falar das coisas antes de elas estarem concretizadas. Foi assim com a carta de condução (os meus pais só souberam quando telefonei a dizer "Passei no exame de condução"; é claro que o facto de ter pago a carta toda com o dinheiro de um part-time e de estar a viver com a minha avó a 150 km de distância ajudou), foi assim com o meu namoro com ele (os meus pais só o conheceram passado um ano, e só porque eu ía voltar para casa para ir para a faculdade, e não tinha justificação para querer ir para a minha avó todos os fins de semana), ou ainda quando decidimos ir morar juntos (os nossos amigos só souberam depois de já termos comprado casa).
Po isso ainda hoje penso que o facto de termos começado logo a contar a algumas pessoas que "estávamos em treinos" contribuiu para não termos conseguido (até agora, porque ainda não desisti!). Sei que é uma ideia sem sentido, quase uma superstição, mas o que é verdade é que aconteceu. Tirei a carta à primeira, encontrámos uma casa porreira por um preço excelente (em Lisboa não dava nem para um T0), continuamos juntos e felizes, e a única decisão que anunciámos sem estar concretizada... Dá que pensar...

Depois do jantar elas ainda foram beber um copo ao bar. Eu pedi à C. para me deixar em casa, os 3 copos de vinho branco bateram de repente, forte e feio. É uma tristeza, fiquei KO com 3 copos de vinho branco!! Ando destreinada.