sábado, 31 de julho de 2010

Espairecer (II)


Depois de uma semana (quase) inteira a definhar lentamente em casa, ele acordou cheio de vontade de sair e respirar ar puro (tradução: acabou todos os jogos que tinha no computador).
O dia fez-se entre um almoço de migas de espargos com entrecosto (coisinha leve, pois claro), uma visita ao Fluviário (tive tanta pena de não ver as lontras)...














... e uma esplanada em Arraiolos...








... mais uns nomes estranhos...



... e compras nas barraquinhas da Feira de Vila de Rei: farinheiras, queijos, doce de abóbora e doce de melão com amêndoas (podia ser pior, a C. comprou um par de cornos...).






Para terminar a noite, o jipe a ser rebocado por uma pickup para conseguir sair de uma vala (o facto de ter duas rodas no ar não estava a ajudar...).
E a frase do dia foi "Porque é que as vacas ficam sempre do teu lado?"

Comemorar (III)

Porque hoje um anjo de caracóis vestiu as asas e casou-se.
Num dia sonhado de alegria e partilha. De celebração do amor terno e forte que os une. E de emoção, muita emoção. Porque não sabe viver de outra forma. E porque merece todas as bençãos, todos os momentos de felicidade e júbilo, toda a confiança num merecido futuro risonho que se faz dia a dia, plantando carinho e vivacidade e recebendo sorrisos e gratidão.

ColdPlay

"Clocks"


Ouvir e sentir (CXXXII)

Fine Frenzy
"Lost Things"


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pedinchar

"Dá-me um abraço que seja forte
e me conforte a cada canto
não digas nada
que nada é tanto
e eu não me importo.

Dá-me um abraço, fica por perto
neste aperto tão pouco espaço
não quero mais nada, só o silêncio
do teu abraço.

Já me perdi sem rumo certo
já me venci pelo cansaço
e estando longe, estive tão perto
do teu abraço".

(Não gosto da música, a voz do Miguel Gameiro irrita-me solenemente - quase tanto como a do Nuno Guerreiro - mas a letra diz-me muito... diz-me tudo).

"Estavas desertinha para vê-lo, não estavas?"

(Estava...)

Ricki-Lee
"Can't touch it

(Sex And The City 2 OST)


terça-feira, 27 de julho de 2010

Momentos (CXXIII)

Passar o dia em casa da mãe a receber mimos.
Novelos de linha coloridos e chá de tília.
A cadela a lamber-me os dedos dos pés.
Meias em miniatura para o bebé e fatias de pizza.
Voltar mais rica. Não tanto pela nova carteira, não só pelo envelope, mas pelo livro d'Os Maias que era do meu pai, uma edição de 1978, o ano em que nasci, que a mãe me entregou ainda com os meus apontamentos lá dentro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Distrair (V)

Noodles, cinema e a companhia do V. e da R.. Um bom programa para uma noite quente de verão. Há muito tempo que um filme não me prendia ao ecrã desta maneira. Um argumento intrincado sem perder o sentido (tanta droga que aquele senhor deve ter fumado...), boas interpretações, humor inteligente na medida exacta, uma qualidade visual excelente, uma banda sonora capaz de alterar o ritmo cardíaco (Hans Zimmer, tinha de ser) e um final esperado (ou talvez não).
Um filme a rever (nem que seja para apanhar os pormenores que de certeza me escaparam).

Zack Hemsey
"Mind Heist"
(Inception OST)


Lembrar (uma e outra vez)

Alicia Keys
"That's how Strong my Love is"


A lua da minha janela

domingo, 25 de julho de 2010

Momentos (CXXII)

A avó R. deu-me um naperon de linho bordado a ponto cruz e crochet . E uma manta de retalhos para estender em frente à lareira no inverno (mantenho a filosofia de não ter tapetes em casa).


É claro que não vou dar uso nenhum ao naperon, mas é uma lembrança, um valor sentimental que cresce à medida que me vou apercebendo do tempo, paciência e habilidade que são necessários para fazer um trabalho minucioso e delicado destes.

Mau sinal

Quando a vida me f%$# eu descarrego no cabelo.
Estou a pensar em mudar de cor. E cortá-lo abaixo do queixo.

sábado, 24 de julho de 2010

Partilhar a felicidade

Sentámo-nos no banco mais próximo da saída da igreja, prontos para a evacuação de emergência. O V. lembra-se que giro, giro, era terem contratado uma gaja para se levantar quando o padre perguntasse se alguém tinha alguma oposição a fazer àquela união. A R. responde que melhor ainda era um puto sair largado direito ao V. a gritar PAAAAAAI!!
Assim que a noiva entrou na igreja nós saímos descaradamente para o café da praça.
Ele andou quase a arrastar a noiva, segurando na cauda do vestido como se fosse uma trela, para sermos os primeiros a tirar uma fotografia e podermos fugir do jardim a sete pés.
Passei metade do almoço dentro do carro a fazer um esforço para não desmaiar. Já há muito tempo que não tinha um ataque de quebra de glicémia tão grande.
Passei o resto do tempo a fazer um esforço para não pensar. Consegui. Mantive-me bem-disposta e conversadora. Os amigos, por quem fomos ao casamento, não se aperceberam da sombra negra que me envenena a alma. Porque merecem este cuidado.
A conversa com o V. e a R. distraiu-me. Enquanto o resto do pessoal foi à procura do jipe do noivo. Para lhe servirem as porcas das jantes numa bandeja... e dois pneus.
Ele passeava descalço na relva e dizia bacoradas com o volume no máximo para quem quisesse ouvir, enquanto as senhoras de bem à nossa volta arregalavam os olhos e só faltava fazerem o sinal da cruz (eu passo cada vergonha...) e o C. estava ligado à ficha e imparável. Eu lançava para o ar bolas de sabão (dos frascos que supostamente eram para as crianças).
O espaço era muito agradável, o serviço foi cinco estrelas, e a comida (principalmente no copo de água) foi das melhores que já experimentei neste tipo de evento (fala a experiência de quase sete anos a servir casamentos para pagar os estudos).
A C. estava igual a si própria, e notou-se que planeou este dia ao pormenor, para que fosse como sempre o tinha sonhado. O V. estava quase irreconhecível de tão sério e bem-comportado, até parecia um homenzinho.
E nós terminámos a noite a concordar que fizémos bem em aceitar este convite.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Onde é que eu falhei?

O que é que fiz mal? Ou o que é que devia ter feito e não fiz? E os sintomas? As insónias, as dores no peito, os cheiros e sabores que me incomodavam por tudo e por nada? Fruto das hormonas que andei a tomar ou da minha imaginação? Dizem que quem quer muito ter um filho sente tudo. Eu sei que senti.
2.1. Foda-se ao menos podia ser 7 ou 8, qualquer coisa que fosse inconclusivo mas não fosse um Negativo redondo esfregado na cara. 2.1 é mesmo a dizer "esquece lá isso, volta a beber copos que passa". Foda-se. Agora é deixar de tomar a progesterona que está a evitar o período e esperar. Haverá algo mais derrotista que isto?
E pelos vistos a minha teoria de merda também não serve para nada, "se não contar a ninguém as coisas vão correr bem", pois, nota-se, nem duma maneira nem da outra. Foda-se.
Pela primeira vez pensei em desistir. Estava tão certa que era desta, que tinha tudo para correr bem, o timming era perfeito, estou de férias, podia relaxar sem o stress do trabalho, o que é que falhou?
Como é que há mulheres que engravidam sem querer? Que continuam a ir ao ginásio, a jogar ténis, a fazer uma semana de campo na tropa (a P. fez isso com a I,) e engravidam, e corre tudo bem? Pior ainda, como é que há mulheres que engravidam de violações? Não percebo, não consigo perceber porquê, que critério de merda é este?
É claro que era uma possibilidade, mas estava tão tranquila, passei por todo este processo com uma calma e confiança que até a mim me espantaram. Estava tudo bem. Fiz tudo direitinho, as putas das injecções, as viagens a Coimbra, andar em pezinhos de lã e subir ao primeiro andar de elevador, não ter sexo, não beber alcoól, encher-me de água e descansar até ao limite do aborrecimento. Até deixei de beber café!
Fiz tudo o que podia. E agora não sei o que fazer.

Ouvir e sentir (CXXXI)

Porque hoje é dia de festejar. Há uma Rainha que faz anos. E um Visconde também. É o último dia de trabalho do meu puto mais velho em Lisboa. E acabei de saber que começa a trabalhar aqui já no próximo dia 1. Só falta uma notícia para este dia ficar gravado na história. Enquanto não chegam as 5 horas preparo-me para o casamento de amanhã. Com serenidade e uma vela acesa. Com espírito de festa.

Scissor Sisters

"Fire With Fire"



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Alerta

A tartaruga fugiu. Em menos de 24 horas é a segunda vez que se evade. Atira-se num voo suicida do alto do móvel e corre pela vida os quilómetros (para ela são quilómetros) que a separam do caixote do lixo. É sempre lá que vamos dar com ela, encostada à parede do fundo da cozinha.
Ele fartou-se e foi comprar um aquário novo, uma caixa de acrílico transparente com uma plataforma toda colorida e cheia de palmeiras maricas. Foi nessa altura que percebemos que o bicho não sabia nadar. Estava habituada a esticar o pescoço e respirar, a água nunca a cobria completamente. Quando a pusemos no fundo do aquário novo ficou imóvel durante muito tempo, e só quando começou a ficar aflita é que esperneou e esbracejou até chegar à superfície. Aquilo agora já é tudo dela. Tal como ele disse "o bicho nunca foi tão feliz na vida".

Pormenores (XVII)...

... familiares.







quarta-feira, 21 de julho de 2010

Private (XI)

Há pouco, enquanto enchia o corpo de Molton Brown e creme anti-estrias (que já comecei a usar, pelo sim pelo não) olhava para a minha barriga e pensava "como é que vai caber aqui um bebé (ou pior, dois)?"
Está bem que não sou nenhuma tábua rasa, mas é difícil interiorizar que daqui a uns meses esta pele pode esticar e adaptar-se a uma forma de balão redondo. É assim que me imagino, uma grávida linda e sorridente, com uma barriga redonda que vou fazer questão de mostrar ao mundo, orgulhosamente.

Fazer nada

E não é do verbo nadar. É mesmo NA-DA. Desde ontem, após o check-in e atravessar a estrada que nos separa da praia, a nossa vida tem sido apanhar sol, ler e comer. Não falo em nadar porque o melhor que apanhámos foi bandeira amarela, e não falo em dormir porque as minhas estranhas insónias continuam (nas pessoas normais isso significa dificuldade em adormecer, eu não, apago em minutos, depois acordo entre as 5 e as 6 da manhã e já não prego olho).


Cada um na sua toalha, eu com a Soma dos Dias, ele com uma revista de informática e a última edição da Playboy (pelos vistos é mesmo a última), foi assim que passámos a tarde de ontem, e todo o dia de hoje. Ao pôr do sol sentámo-nos numa esplanada a petiscar e a fotografar, é engraçado ver as pessoas que passam (muitos espanhóis e avecs) ou que se sentam nos bancos em frente à praia; as ameijoas à Bulhão Pato e o berbigão à espanhola têm outro sabor ao som das ondas do mar.



Às 4.40 da manhã acordo, fico muito quieta para não espantar o sono de vez, pode ser que ele volte. Não volta. Às 5 e meia também ele já despertou, não sei se pelo calor que estava no quarto se por me ter sentido inquieta. "Se não dormimos, vamos sair". Percorremos o areal deserto sob a bruma do amanhecer frio, àquela hora reinam os bandos de gaivotas nos seus voos planantes (e ele descobriu uma gaivota só com uma pata, mas com o mesmo equilíbrio e facilidade de voar que todas as outras).



Desde que voltámos ao hotel ele só acordou em duas ocasiões: para tomar o pequeno-almoço e sair para a praia; e para almoçar o famoso hamburguer com sumo de laranja. Fora isso, na toalha durante a manhã ou no pouf à sombra do guarda-sol de palha onde passámos a tarde espojados, esteve sempre a dormir, enquanto eu li o resto do livro (ía a meio) de uma assentada, boquiaberta e divertida com as histórias mirabolantes da tribo de Isabel Allende. Depois de ler sobre a família dela, nunca mais vou poder dizer que a minha é louca.
Isto é cultivar a preguiça ao mais alto nível, mas também recarregar baterias, e apesar de termos de ir embora amanhã (é por uma boa causa...) estávamos ambos a precisar (ele muito mais do que eu, mesmo que nunca o admita) destes três dias inteiros de inércia pura.