segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tudo o que se espera de um domingo sossegado





Almoço de família em casa do meu sogro. Desta vez com a companhia da minha mãe. Os mimos da minha afilhada mais velha. Não me canso de olhar para ela (a fazer expressões e caretas que nos surpreendem a cada minuto). De ouvi-la a falar (a repetir tudo o que ouve). A minha mãe ficou deliciada com ela. De vez em quando dizia "não tarda nada, a nossa também está assim. Já passou um mês. É num instante". Jogamos à bola no quintal. Apanhamos laranjas, limões, alfaces e coentros. Conversas e raios de sol. Estamos em paz.

Ai!

Esta manhã quando me consegui arrastar penosamente para fora da cama, lembrei-me da Soraia Chaves no Call Girl, quando o Nicolau Breyner lhe pergunta o que é que ela faz, e ela responde "Tudo...".
A minha versão sería "O que é que lhe dói?"

sábado, 29 de janeiro de 2011

Memórias de infância*





* ou O único consolo de ter passado um dia e meio a fazer a mudança de casa da minha mãe - para um terceiro andar sem elevador - foi ter descoberto estes meus livros, dos primeiros que tive (para além de ter a minha mãe a morar ao pé de mim, claro).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Nunca esquecer (II)

"Desde o dia em que tive de digerir Auschwitz, comecei a duvidar da existência de Deus. Mas e se até o Holocausto era destinado a ser um sinal? Uma lembrança terrível, incompreensível e até intolerável para todos nós, que fomos poupados, da forma como o nosso tempo é tão precioso e precário aqui. E se a existência dos campos de concentração fosse a única forma de provar às pessoas que, em termos de comparação, não somos números tatuados, mas sim pessoas únicas, cada uma com um nome e com uma história para contar? Que as nossas vidas, por mais rotineiras, muitas vezes árduas e por vezes cheias de glória injusta, valem a pena ser vividas."

In: Caçadora de imagens

(Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho da União Soviética libertou sete mil prisioneiros abandonados no campo de concentração de Auschwitz, após a retirada dos alemães).

É triste

Não sinto metade da cara. Acho que tenho um bocado do lábio pendurado do queixo. Até tenho medo de beber um gole de água. De certeza que me vou babar como os putos. Pior que a minha sobrinha (Que amanhã faz um mês. Está tão fofa. Recebo mms's com fotos lindas dela a dormir. Com a bochecha enorme espalmada no colchão. E a fazer boquinhas. Já veste roupa de 3 meses. E luta contra o sono. Presta atenção a todos os pormenores e faz muita força nas pernas para se esticar). O dentista bem disse que a anestesia dele era "coisa séria, viu?".
(Quando voltar a ter o pleno domínio da minha boca, vou devorar um pacote de batatas fritas inteiro. Dos grandes.)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Adoçar o dia

À hora do almoço abri as janelas. Deixei entrar o sol. Deixei a casa respirar. Fiz molho de chocolate para cobrir o bolo (de chocolate) do fim-de-semana (a metade que sobrou).
À tarde fiquei a saber que a minha mãe está quase a chegar. Espero que seja feliz aqui. Mais feliz do que o meu irmão foi.
Voltei a divagar sobre viagens. Não precisava de tudo isto (fiquei cansada só de ler. E as fotos? Que fotos!). Bastava-me o Golfo de Portofino. Eu sei que não devo. Prioridades. Mas prioridades para quem? Será que esquecemos o que não verbalizamos?
(Lembrei-me de ti ainda há pouco. Fiz arroz de grelos para o jantar. Era dos pratos que mais adoravas. Já passou quase um ano. Como? E viste tudo o que aconteceu - e não aconteceu - num ano? A vida é mesmo o espectáculo mais incrível que existe, não é? E nem temos de pagar bilhete).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dizem que hoje é o dia mais deprimente do ano

A minha sobrinha já está em casa.
Chegaram mais quatro (bons) filmes para ver.
Ouvi um "Obrigado" do meu chefe, pela primeira vez.
Hoje foi um bom dia.

Owl City
"To The Sky"
(Legend of the Guardians The Owls of Ga' Hoole OST)

Buscar inspiração

Chão de madeira, paredes brancas, janelas altas, varandas habitáveis e convidativas, luz a jorros. Adoro. Adoro. (E os sapatos expostos em vitrines? Lindo!)







(num dos sítios do costume).

domingo, 23 de janeiro de 2011

É do frio...

Paramos no supermercado só para comprar pão para o jantar.
Saio de lá com donuts com cobertura de baunilha (que não chegaram a casa), pacotes de batatas fritas e de cocktail de frutos secos torrados com sal.

Na terra da avó (VI)













(hoje, a maioria das fotos é dele)

Ver crescer

O meu puto grande está cada vez maior. Convenceu a mulher a vir dormir umas horas a casa. Passou a noite com a filha no hospital. Só os dois. Mudou-lhe a fralda, deu-lhe biberão, adormeceu-a. De duas em duas horas. Sozinho. Vigilante. Seguro.
Dizem-me que é normal, que muitos homens o fazem. Eu não acredito. Que sejam assim tantos. Imagino o alvoroço naquela enfermaria. Porque o meu irmão é giro. Não é por ser meu irmão. Ele é mesmo muito giro. E não há mulher nenhuma que resista a um homem giro a mudar fraldas.
O meu irmão está tão crescido.

sábado, 22 de janeiro de 2011

A repetir

Um bar novo, aqui tão perto. Uma decoração minimalista mas confortável. Música que convida à conversa. Uns sofás debaixo do alpendre que prometem longas noites de verão (pois, só no verão, que hoje não se aguentava lá fora). Cacau quente e o espectáculo musical de Arlindo & os Tachos. O senhor do Licor Beirão que foi massacrado a noite toda (e as referências inevitáveis ao caso Carlos Castro). Ri muito. Estive com óptima companhia.
Valeu a pena tirar o pijama e aceitar o convite do V.

Combinação desastrosa *

4 horas mal dormidas (o puto grande estava a precisar disto, sair um bocado, beber uns copos e jogas dardos até às 5 da manhã, valeu a pena só para vê-lo respirar fundo e descontrair depois de 4 dias enfiado no Santa Maria das 9 da manhã à meia noite) + ressaca (a história das rodadas por cada Hat-trick não correu lá muito bem) + frio cortante na Gare do Oriente (a última vez que tive assim tanto frio foi na Torre da Serra da Estrela, e estava nevar - já agora a mente brilhante que arquitectou a estação devia estar hoje amarrada a um daqueles bancos, durante 2 horinhas, para ver se gostava...).

* Ou convite por escrito ao Ben-U-Ron

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Combater a crise

O meu (humilde) contributo para a dinamização da economia:


As recordações também têm cheiro

A A. abre um pacote de bolachas waffles e o cheiro leva-me para um beco sem saída nas traseiras de uns prédios sem alma, carros estacionados selvaticamente, portas abertas de armazéns decrépitos e a entrada escura e estreita para uma escada íngreme que descia (desce) para o interior do primeiro centro comercial da zona, um espanto com 20 lojas e uma sala de cinema. E aí, numa das portas entreabertas de negócios em decadência, a fábrica de bolachas mais maravilhosa, o cheiro doce e cremoso que se adivinhava na rua e nos guiava até à entrada, as embalagens coloridas que contrastavam com o cinzento das paredes, os sacos de plástico transparente cheios de bolachas tortas ou partidas, recusadas pelo controlo de qualidade, só por serem feias e não terem a forma correcta, mas igualmente saborosas, quantas vezes até mais carregadas de recheio do que as outras, as perfeitas, embaladas em papel brilhante colorido.
Ali, na fábrica de bolachas do beco atrás do Kaué, comprávamos sacos e sacos de bolachas a 100 escudos, ou a 150 escudos se fossem das minhas preferidas, as waffles quadradas com recheio de baunilha e cobertura de chocolate, que eu abria cuidadosamente para lamber o recheio branco, e depois molhava no leite, muitos anos antes de a Oreo vir fazer anúncios a ensinar como é que se come bolachas.
É claro que a fábrica já não existe, eu sabia, mas telefonei à mãe só para ter a certeza, ela confirma que sim, que fechou há anos, depois diz-me “deixa estar filha, nós vamos ao supermercado e compramos outras”, e eu respondo que não é a mesma coisa, não têm o mesmo sabor. São demasiado perfeitas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fora de tempo

Às vezes acho que devia ter nascido noutra época...




Visto aqui.

Começar bem o dia

(Vamos saltar a parte de como realmente começou o dia, que isto ainda é um blog com algum decoro):

- Olha, lembraste daquele aviso de recepção do Ministério da Administração Interna? É uma multa.
(olha que novidade...)
- Foi por ir a falar ao telemóvel. São 230 euros e 30 dias sem conduzir...
(ai vais andar de TURE, vais... ou de bicicleta...que é bem bom).
- E agora tenho de desligar senão ainda apanho outra...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sem anestesia

Estava aqui a magicar um post sobre as conversas telefónicas com a mãe, são uma comédia e uma tragédia grega, falamos pelo menos dia sim dia não, hoje já lhe liguei duas vezes, ouço-lhe tudo o que não conta a mais ninguém, faço-a rir e amparo-lhe o choro, a última conversa foi sobre a crise, e uns comprimidos que ela toma, que custavam 2 euros e tal e passaram para 10 euros, "isto está tudo pela hora da morte, filha", mas a preocupação maior nem é isso, não é o medicamento dela ter encarecido, mas o facto de os medicamentos em geral estarem mais caros, "e as pessoas que têm uma reforma pequena, como é que elas aguentam? Se calhar deixam de comprar os remédios que precisam", isto é a minha mãe no seu melhor, a alma mais caridosa (e ingénua) que conheço, capaz de chorar baba e ranho com as desgraças vomitadas pelo telejornal, incapaz de ficar indiferente ao sofrimento alheio, seja de uma pessoa com um pé inchado ou de uma planta murcha.

Mas depois o N. liga a dizer que "a baby vai ficar internada, deve ser uma bronqueolite mas vão fazer mais exames" e a voz embarga-se-lhe, contém o choro "tem dois tubos enfiados pelas narinas" e isto é ser pai, descobriste agora, não foi?, a dor da impotência, os ouvidos a sangrarem com o som do choro de um filho, não consigo imaginar a tua angústia, estou tão longe, queria estar ao pé de ti para te dar a mão, não sei se ajudava mas dava-te a mão à mesma, apertava-a com força e dizia-te com os olhos que vai correr tudo bem; mas sinto-me inútil aqui neste canto, só posso esconder-te a revolta na voz, foda-se ela só tem 20 dias, devia estar em casa aninhada nos braços da mãe e a ouvir as baboseiras do pai, isto não, isto não devia acontecer.

As vantagens de trabalhar "no campo"

domingo, 16 de janeiro de 2011

Isto é capaz de demorar um bocado...

Estou a fazer uma cópia de segurança dos ficheiros-que-se-desaparecessem-me-dava-uma-coisinha-má:
- Fotografias - 6.860
- Imagens (fontes de inspiração que guardo das minhas divagações na net) - 439
- Músicas - 1.414
- Videos (quase todos videoclips) - 393

(Os filmes estão seguros noutro disco externo, que por acaso já está cheio e não cabe lá nem mais um alfinete).

Sinto-me cansada

E não percebo porquê. Há duas noites que caio no sofá a seguir ao jantar e adormeço quase de imediato. Não vejo um filme, não papo CSI's de empreitada enquanto tricoto a barra branca da manta azul e encarnada, nem tenho vontade de escrever.
Ontem acabei por não ir a Leiria, por não ir a lado nenhum, só saí de casa para jantar com ele, o Lusit.anus é sempre uma boa escolha (só acho que um restaurante daqueles não devia ter televisão, e a selecção de música também não tem nada a ver com a comida divinal e o cheasecake de framboesas), contou-me tudo sobre o curso de fotografia, tive tanta pena de já não haver vagas para mim, para a próxima tenho mesmo de ir, ele a contar-me e eu a arregalar os olhos, parece tão interessante, mesmo a parte teórica, a história da fotografia, a tabela de exposição que relaciona os ISO's e os F's, as estórias do fotógrafo que dá a formação ("nota-se que há ali algumas mazelas emocionais, ele viu muita coisa").
Depois ele pergunta-me como correu a minha semana, e eu solto um chorrilho de queixas e de medos, tenho medo dos próximos meses, a R. vai de licença de maternidade e eu fico a substituí-la, assim sem mais nem menos, não põem ninguém no lugar dela e vão querer que tudo continue a  funcionar normalmente, eu é que não acho isto muito normal, e tenho medo, e começo a acusar o cansaço, nem sequer me lembrei de lhe contar que a Dª P. me ofereceu uma farinheira, cheguei de manhã e logo ali na recepção, ainda de casaco e mala ao ombro, ela dá-me um saquinho com uma farinheira lá dentro, feita por ela, "depois diga-me como está de temperos", ainda está no frigorífico, vou fazê-la como gosto mais, uma entrada com ovos mexidos macios, para barrar no pão. Eu podia ter-lhe dito isto, se não estivesse tão preocupada com um chefe que não merece as palavras que gasto a queixar-me dele, tenho de aprender a não lhe dar relevância, a reduzi-lo à sua insignificância para que não me afecte, e vou saber que fui bem sucedida no dia em que ele me ligar 15 vezes durante a manhã e isso não me provocar alterações no ritmo cardíaco, não me afectar porque objectivamente não tem importância, ele não tem importância nenhuma, sou eu que lha dou, e isto tem de parar.
(E vou começar a tomar um suplemento vitamínico).

Gautier Reyz
"The Riverboat Song"*


* visto aqui.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Momento (CXL)

Faço a curva de saída da A23 no regresso da minha ronda pelas lojas (camisa branca - ok, skinny jeans - ok, e uma fita de cabelo preta rendada a que não resisti), e à minha frente surge a estrada a direito, a rotunda grande lá em baixo, o vermelho dos stops dos outros carros, o azul dos neons à esquerda e à direita, tudo envolto na luz difusa do nevoeiro, aquela névoa que torna tudo imaterial e etéreo, no preciso instante em que os primeiros acordes do violoncelo começam a tocar no rádio.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Oh que chatice...

Ontem em "conversa" com a Joana mai linda disse-lhe que ainda não tinha ido aos saldos (melhor, ainda não comprei NADA este ano, nem sequer umas cuecas) porque não precisava de nada, a não ser uma camisa branca, que a última ficou um bocado rosada depois de sair da máquina de lavar (mistérios insondáveis do universo, é o que é...). Mas pensando bem, também preciso de uma mala preta a tiracolo... e umas skinny jeans de ganga muito clara... e umas sabrinas com padrão leopardo...e um ou dois vestidos.
Assim se calhar amanhã tenho de ir dar uma volta a uma loja ou duas... e a A. já me falou em irmos a Leiria no sábado (que maçada, passar uma tarde às compras e na conversa...).

Três anos de tudo e de nada

O espírito mantém-se inalterado. Private jokes e lamúrias (tantas, credo). Alcunhas e mania-que-sei-fotografar. Desabafos que escapam à auto-censura (cada vez menos) e música para encher os dias (cada vez mais). Viagens (menos do que gostaría) e desgostos (mais do que julgava possíveis). Fragilidades que me impedem de divulgar este nome (lindo, por sinal, onde é que eu tinha a cabeça?) mas também estórias de fé em alguma coisa, de crescimento interior, de amor maduro e seguro. Migalhas de vida que quero guardar, como a fatia do bolo de casamento que a mãe guardou durante mais de 30 anos dentro da arca de madeira, duro, é claro, mas perfeitamente conservado. Como as boas memórias. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011

Momentos (CXXXIX)

Rever o P.S. I Love You e adorar cada cena, de novo. Beber litradas de chá de eucalipto com laranja. Sair de casa ao anoitecer, só para ir enfiar o jipe dentro de água.




(Isto não é um lago, é a estrada de acesso a Reguengo do Alviela...)

Comer salame de chocolate e começar a organizar um dossier com todos os artigos de revistas que guardei nos últimos anos, pedaços de inspiração para colorir a vida.

Os senhores da Renova é que sabem...


É bom saber

- Anda, vamos dormir...
- Eu ainda tenho tosse, não te vou deixar descansar.
- Durmo pior sem ti do que contigo, enrolo-me todo... Anda, se começares a tossir muito vou eu dormir para o outro quarto.
(Tão querido...)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Brilhar

Hoje é dia de desmanchar a árvore de Natal e guardar todas as decorações no sotão até ao final do ano (que vai chegar a correr, acho que o ano vai passar num instante, o tempo continua a escorrer por entre os dedos... faz hoje um mês que caí no fundo do poço e me deixei afogar no desalento, ninguém se lembra disso, só eu, não devia, eu sei, e até me tenho portado muito bem, mas hoje não posso, não consigo deixar passar em branco, tive o sonho na mão, em mim, e perdi-o...), mas o brilho é para manter. Em casa, aqui e na vida.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Do que eu me fui lembrar...*

Klaas meets Haddaway
"What is Love 2K9"


* Ou A mistela está a fazer efeito...

Tratamento de choque

Ora bem, se eu misturar ponche com aguardente (não há aguardente, vai de vodka que deve fazer o mesmo efeito) e sumo de laranja, e aquecer com um pau de canela e mel, e beber um copo daquilo de penalty, e passar o resto da noite a fazer zapping no sofá embrulhada na minha manta polar com mangas, pode ser que a bronquite passe (e que eu possa finalmente voltar a dormir na minha cama... ou voltar a dormir, ponto).

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dois presentes

À hora do almoço recebo a minha última prenda de Natal, a dele, a que estava esgotada e veio de muito longe: um cobertor com mangas, felpudo e amarelo (ele ainda pensou em encomendar cor-de-rosa, mas achou que era capaz de ser um bocadinho demais…), a pensar nas minhas noites de sofá a ver filmes ou a vaguear pela net (entretanto lembrei-me que temos de ir para o quintal do meu sogro à procura de formigas de jeito, as de cá de casa não servem para o viveiro, são pequenas demais e já fugiram todas pelas duas entradas de ar, que são dois buracos minúsculos, não cabe lá nem uma agulha).

Ao final da tarde recebo a visita da minha sobrinha, um pequeno embrulho com 8 dias de vida a dormir no seu ovo, alheia à música da rádio, à luz acesa, às nossas vozes a falar normalmente (a mãe está a habituá-la bem). Volto a ter um corpo minúsculo e quente encostado ao meu peito, sinto a respiração rápida e ouço os barulhos que ela faz, uma forma de refilar quando se apercebe que o meu cheiro é diferente do da mãe, o que significa que aqui não há leite. Já mama sofregamente “sais mesmo ao teu pai…” e dizem que ela tem o mesmo sinal que eu, uma mancha na testa que escurece em situações de stress (no caso dela, quando chora com fome, basicamente a única razão que a faz manifestar-se… por enquanto). A C. diz que ela tem olhos de azeitona, e tem razão, são uns olhos rasgados e cinzentos, muito curiosos, que seguem o som das vozes e fixam os movimentos da televisão.
Acho que não consigo estar mais babada do que isto…

domingo, 2 de janeiro de 2011

O ano começa bem (II)

Ficar tempos esquecidos a ver a minha sobrinha a dormir. Já chora em vez de miar, mas só quando tem fome, ou frio, não gosta de frio, tirar-lhe a roupa para mudar a fralda é uma comédia. Já fixa o olhar na televisão, por causa do som e do movimento. Já perdeu aquelas cores estranhas do primeiro dia, e também está a perder a pele (o médico disse que se deve a ela ter estado tempo demais na barriga da mãe). 5 dias de vida. Todos os sonhos do mundo. Com o que será que ela sonha? Porque ela está a sonhar, de certeza, faz esgares, sorri, franze os olhos, faz beicinho e boquinhas com os lábios minúsculos.
Podia ficar aqui o resto da tarde a olhar para ela embevecida, e pegar-lhe ao colo e enchê-la de beijos. Não fosse o medo que tenho de lhe passar a constipação tão gentilmente cedida pelo meu excelentíssimo marido, devidamente acompanhada com tudo a que tenho direito: tosse cavernosa, o nariz transformado em torneira avariada e espirros capazes de me derrubar pela força.

Doze passas

Estava a colar as últimas fotos nos álbum (as do casamento do meu irmão mais novo, que por acaso até já acabou, é quase uma ironia...) e vi este texto no meio das páginas, mais uma das coisas bonitas que guardo religiosamente. Não costumo fazer resoluções de ano novo (mas hoje decidi que vou voltar ao hábito de beber chá, amanhã vou comprar outro termo de 1 litro para levar todos os dias para o escritório), mas identifiquei-me com muito do que aqui está escrito. Pequenos gestos ou grandes mudanças, dos que se prometem todos os anos, ou dos que se realizam uma vez na vida. Mas todos importantes. Todos capazes de tornar este ano inesquecível.

"Na mão doze passas, uma para cada resolução que se quer tomar no novo ano. Sensatas, prepotentes, ridículas, seguras. Nossas.

Primeira passa: Tempo
Este ano vamos ter tempo. Vamos escapulir-nos mais cedo do trabalho para entregar o corpo a massagens. Vamos ao cinema uma vez por semana, sessões duplas se for preciso, Tarantino ou Oliveira. Vamos contorcer a agenda para marcar jantares de amigos, daqueles que se alongam até virarem ceia, pequeno-almoço. Vamos esticar-nos no sofá, indiferentes à loiça que grita para ser lavada. Vamos ver os miúdos sem ser a dormir, vamos dar um beijo aos pais sem ser no Natal. Vamos ter tempo para nós, para rir agarrados à barriga, para ler revistas à beira rio. Vamos enterrar o telefone debaixo do colchão, atirar o despertador contra a parede, dormir mais uma hora, fazer da preguiça um pecado imortal.

Segunda passa: Corpo
Este ano vamos deixar o ginásio onde não pomos os pés, onde não levantamos pesos, onde o rabo não diminui, onde os músculos não aumentam, onde a carteira emagrece. Vamos calçar os ténis e subir e descer colinas, para isso temos sete. Vamos passear o cão mais vezes, ensiná-lo a atirar a bola para a apanharmos. Vamos correr os metros que conseguirmos, hoje dois, amanhã quatro, para o ano a maratona. Vamos comprar uns patins, arranhar os joelhos. Vamos dançar na sala, pular na cama, trepar paredes, subir um andar a pé, mais dá-nos cabo dos rins. Vamos desejar com muita força que o corpo ganhe contornos de escultura. Esperar para ver.

Terceira passa: Comida
Este ano não vamos renegar um hambúrguer, umas batatas gordurosas, uma piza familiar. Não vamos ostracizar os brócolos por serem verdes, torcer o nariz aos espinafres, fazer a segregação da cebola. Não vamos desmaiar com os transgénicos, benzer-nos perante salada pronta-a-servir. Vamos deixar o enjoo de lado para experimentar peixe cru, perceber que se perderam anos de vida, nunca mais querer outra coisa. Vamos espalhar tachos pela cozinha, sujar o fogão, errar até fazer bem, perceber que a comida feita existe por algum motivo. Vamos tornar-nos reis da cozinha, impressionar o mundo. Vamos estourar dinheiro num restaurante caro, vamos sentar-nos numa tasca. Vamos esquecer a ASAE e voltar ao pato à Pequim.

Quarta passa: Nós
Este ano vamos ajoelhar-nos para um pedido de casamento. Vamos ganhar coragem para lhe dizer que temos outro, que o seu melhor amigo se faz a nós, e nós a ele. Vamos mudar de casa, uma tão grande como os nossos sonhos. Vamos dizer-lhe que o amor já lá vai, passou. Vamos tentar ter um filho. Vamos apanhá-lo com outra, vomitar todas as lágrimas e arranjar um novo amor. Vamos esquecer as paixões de 2008, de 2007, todas as que nos espatifaram o coração. Não vamos dizer que o problema somos nós, não eles, porque às vezes são mesmo eles. Vamos fingir que nunca dissemos “nunca mais” e vamos viver tudo de novo. Vamos dizer “desculpa”. Vamos esperá-la com o jantar feito. Vamos levá-lo à bola. Vamos pedir-lhe a chave de casa. Vamos dizer “não desculpo”.

Quinta passa: Alma
Este ano vamos ser solidários. Vamos mandar trabalhar quem exigir cinco euros para “uma sopinha”, pagar um corneto-morango a quem o pedir com convicção. Não vamos dizer “para comida sim, droga e vinho é que não”. Vamos sacar de uma moeda quando a intuição nos mandar, oferecer o último cigarro, esticar o isqueiro para lume. Não vamos deixar gorjetas ao empregado que nos levou o copo que ainda tinha vinho, ao taxista que quase nos abateu a tiro por pedirmos factura. Vamos dar a volta ao armário, deixar partir calças que nunca viram a luz do dia, livros que já foram lidos, pacotes de arroz em excesso.

Sexta passa: Viagens
Este ano não damos a volta ao mundo, mas damos voltas no mundo. Vamos fazer o mapa de carro,  escolher a low cost mais barata, somar cidades. Vamos para fora cá dentro, vamos para fora lá fora. Vamos ao castelo de 28, vamos ver Lisboa de barco, vamos ao Porto pelos carris. Vamos estar em movimento, vamos ficar parados a olhar para Nova Iorque, Roma, Madrid, Xangai. Vamos ter saudades de casa. Não vamos querer voltar.

Sétima passa: Poupança
Este ano vamos virar o porquinho ao contrário, pescar as últimas moedas, jurar que tudo será  reposto. Vamos resistir ao crédito tão fácil que só pode ser difícil, ao empréstimo de seis meses que é para a vida toda, ao dinheiro emprestado que é sempre vendido. Vamos fazer explodir o subsídio de férias, pôr nos pés uns sapatos de dezenas, na parede um plasma de milhares, não é verdade que uma vez não são vezes? Vamos fazer contorcionismo orçamental até ao final do mês, dos meses, do ano. Vamos suspirar por mais, vamos ser felizes com menos. Vamos fechar a poupança-reforma, abrir uma conta-vida.

Oitava passa: Gritos
Este ano vamos gritar com a EMEL, rasgar em pedacinhos a décima-oitava multa, lançá-la ao ar  versão confetti. Vamos inverter os papéis, gritar com o chefe, exigir um “obrigado”, um “por favor”, um sorriso? Vamos gritar com quem deixar o cão aliviar-se nos passeios públicos, com quem não parar na passadeira, com peões que se arrastam na passadeira. Vamos gritar pelo Benfica, gritar com o Sporting. Vamos gritar com a crise, com os professores, com os bancos nacionalizados, com o prato que se desfez no chão, com o três no Euromilhões, com a chuva sem chapéu à vista.

Nona passa: Parvoíces
Este ano vamos oferecer abraços a quem passar, vamos para a janela lançar bolas de sabão. Vamos pôr um trampolim no meio da rua e cobrar um euro por salto. Vamos trabalhar com um fato de Batman, assegurar que só podemos trabalhar em missões heróicas ao serviço da pátria, nada de mandar mails ou atender telefones. Vamos andar de bicicleta na rotunda do Marquês. Vamos pedir um beijo na boca a um estranho. Só para ver a que é que sabe.

Décima passa: Eu
Este ano vou jantar fora sozinho, pedir só um bilhete no cinema. Vou passar um fim-de-semana inteiro de pijama, sem lavar os dentes antes de dormir. Vou apagar o teu número de telefone e verter lágrimas agarrada a um peluche. Vou cortar a franja e pintar as unhas dos pés na mesa da sala. Vou aprender espanhol, mandarim, informática e cozinha do Camboja. Vou atravessar o restaurante para dizer que o miúdo aos berros me tira o apetite. Vou ver novelas às escondidas, ler romances pop  debaixo dos lençóis. Vou mandar o bife para trás as vezes que forem precisas, voz firme, olhar  erguido. Vou dizer que não gostei da prenda, exigir o talão de troca. Não vou encher o mundo com as minhas dores, bem bastam as dores do mundo. 

Décima primeira passa: Confissões
Este ano vamos pôr tudo em pratos limpos. Vamos contar quem fez o risco na porta esquerda do carro, quem atacou a poupança para comprar o gadget. Vamos contar que aquelas férias com amigos no Algarve, há doze anos, afinal foram em Ibiza. Com o namorado oito anos mais velho. Que não tinha carta. E que era sensível ao álcool. Vamos dizer que mentimos, que aquele vestido a transforma num cachalote, não a faz parecer mais nova, muito menos magra. Vamos anunciar que foi por medo que não entrámos na montanha-russa, não foi bem por prescrição médica. E que a deixámos casar com outro porque fomos estúpidos. E teremos que viver com isso para sempre.

Décima segunda passa: Horóscopo
Este ano não queremos saber se Leão vai bem com Virgem, se Capricórnio irá para a cama com Peixes, se Sagitário só poderá ser feliz com Balança. Vamos dar fogo às previsões que anunciam dores de dentes, febres altas e Júpiter na casa de Saturno. Vamos rir-nos das boas probabilidades de aumento, de negócios de milhões, de amores para toda a vida. Não nos digam que Abril vai ser um mês excepcional, que em Agosto pode estar calor e que em Novembro é capaz de chover. Não tracem a nossa vida por um ano, que a nós só nos importa o hoje."

(escrito pel'a pipoca mais doce no nº 4 do Jornal Lux - Janeiro de 2009)

sábado, 1 de janeiro de 2011

O ano começa bem

Pijama e sofá.
Domino, Serendipity (também gosto da palavra, do seu significado, e de vez em quando também dou por mim a interpretar sinais como se fossem pistas do destino - mas o meu final não costuma ser tão cor de rosa) e Ratatouille (delicioso em todos os sentidos).

Camille
"Le Festin"
(Ratatouille OST)



Sofá e o colo dele. Tempo para os dois. 
E agora o Anjos e Demónios (again).

Passou-se...

A noite começou com um gato à janela da rua estreita onde fomos buscar os frangos assados, antes de abancarmos sem dó nem piedade na casa do V. e da C. (a tal que tem o chão todo preto e uma parede preta e uma cena estranha no bidé da casa de banho, tipo um tampo de sanita, aquilo serve para quê?).


A noite acabou cedo, depois de um jantar regado a vinho branco, de um telefonema emocionado para o meu puto grande "vá, agora tenho de desligar e ligar à mãe, e ela não me pode ouvir a chorar assim", da contagem decrescente que foi feita com alívio "acabou, finalmente acabou", de uns jogos de Buzz e de mais um ataque de falta de ar dele. Ah, e com um gato preto à mistura.

Para: 2011

Fiz madeixas cor de caramelo, pintei as unhas de vermelho-sangue, tenho um top novo (nada de brilhantes nem ombros despidos, desculpa lá mas não estamos propriamente no Brasil) e estou a dar o meu melhor por ser boa companhia esta noite. Fiz isto tudo para ti, ouviste? Para te receber como mereces, como a grande promessa que és, de melhores dias, de mais momentos felizes, de concretização de sonhos e aspirações. É só isso que te peço. Que cumpras o prometido. É que o teu antecessor lixou-me até não poder mais. Já chega, não achas?
E não estou a pedir nada de especial (quer dizer, para mim é muito especial, para ti é que talvez não), a sério, eu contento-me com pouco. Ver a minha família bem de saúde e feliz. Ver crescer a minha sobrinha e os dois afilhados, fortes e saudáveis. Ter mais tempo para namorar. Fazer uma viagem a um sítio onde nunca tenha estado (só uma, vês como sou comedida?). E não perder a capacidade de ver a beleza escondida nos dias. Porque isso, se não é tudo, é quase tudo. 

Wakey!Wakey!
"Almost Everything"


(sim, eu sei que falta um pedido, só que estou proibida de pensar nisso durante uns meses, lembras-te? Mas se quiseres surpreender-me, estás à vontade...)