Ontem Peter Pan bateu palminhas pela primeira vez. À frente dos avós. Ontem foi dia de família. Aliás, todo o fim de semana foi de família. À tarde a avó e a bisavó que só faltou babarem-se para cima dele. O avô também veio fazer uma visita e Peter Pan espalhou simpatia e sorrisos e gracinhas por todo o lado. É brutal a diferença que notámos no estado de espírito dele desde que veio do hospital. Desde que ficou bom de uma infecção que já andava a consumi-lo há vários dias, julgamos nós agora, porque na altura confundimos os sintomas com mais algum dente a rebentar. Mas a verdade é que andava irritadiço e não queria ir ao colo de ninguém, completamente o oposto deste bebé vivaço e alegre que ontem e hoje deixou todos ainda mais embevecidos de tão bem disposto.
Hoje baptizámos a minha sobrinha e afilhada do coração. Levantei-me às 6 e meia da manhã, arranjei-me e comecei a fazer algum barulho pela casa para ir acordando o gorducho. Nada. Nem um movimento. Abri o estore do quarto dele para deixar entrar claridade. Nada, nem um suspiro. Só passados uns minutos se espreguiçou e abriu os olhos. Custou-me tanto ter de acordá-lo. Enquanto lhe mudava a fralda ele descobriu pela primeira vez a pilinha, e assim esteve a mexer com um sorriso escaqueirado na cara (homens...). Vesti-lhe a camisa branca de linho e as calças cremes com uns suspensórios camel, da cor dos mocassins de pele comprados quando ainda chovia e parecia que o verão tinha emigrado (o que também não fez grande diferença porque quando saímos de casa um dos sapatos já ía na boca dele, e quando entrou na igreja já ía descalço).
Fomos os primeiros a chegar a casa do meu irmão, esperámos pelo fotógrafo para as habituais fotos da madrinha (eu) a vestir a menina, vestido branco com flores azul-acinzentado, um laço prateado e uma saia rodada e farfalhuda. Um pequeno gancho no cabelo com uma flor igual às do vestido, só para realçar os caracóis castanhos. Uma verdadeira princesa em miniatura.
Seguimos para a igreja e entrámos quase no fim da missa (primeira "barraca": supostamente devíamos ter assistido a tudo desde o início). Quando acabou e vi o padre a sair pela porta virei-me para o N. e sussurrei "Então o padre vai embora? Não baptiza a miúda?". Eu juro que falei baixinho, mas uma beata sentada à nossa frente voltou-se e esclareceu logo o que o Sr. Padre já vinha (segunda barraca). Voluntariei-me para ir ler uma passagem da Bíblia, o salmo 23, e quando cheguei à parte do "Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, nada temerei", só me lembrava dos filmes e de como esta frase é usada sempre nos funerais. Estava tanto calor abafado dentro da Igreja que a L. nem chorou quando lhe despejaram a água benta na cabeça, pelo contrário, soltou um suspiro de alívio e pediu mais. Para terminar em beleza, quando chegou a altura de rezarmos o Pai Nosso, Peter Pan desata a gritar como se estivesse possuído.
O almoço foi mais um convívio e um reencontro, uma das raras ocasiões felizes em que conseguimos reunir a nossa família toda (porque é que as pessoas só se juntam todas nos funerais? - e porque é que já é a segunda vez que penso nisto num dia que devia ser só feliz? Faltaste tu... só faltaste tu. Mas viste como a tua menina estava linda?), e só o facto de estarmos numa sala fresca quando lá fora marcavam perto de 40º já era motivo suficiente para nos deixarmos ficar na conversa com os primos (gostei da namorada do R....). Peter Pan tinha dormido meia hora de manhã, até chegarmos a Lisboa, e só foi vencido pelo cansaço às 5 e meia da tarde. Até lá esteve completamente em altas, ria, andava de colo em colo, palrava e soltava gritinhos de satisfação, pegou pela primeira vez num biberão com as suas mãos rechonchudas e bebeu sozinho. Achou tanta piada que acabou por beber um biberão cheio de água (metade natural, metade fresca, já vimos que ele prefere as coisas mais frias do que quentes, até o leite deixei de aquecer), coisa nunca vista. Eu fiquei histérica de tanta alegria por mais uma descoberta do meu coração.
Chegámos a casa estourados e peganhentos e a sonhar com um banho. Não descansámos nada este fim de semana. Só me apetecia ligar amanhã para o escritório e dizer que estou doente. Mas mesmo assim foi muito bom.
"Passou tudo tão depressa / nunca te falei de mim / o que digo não importa / o que sinto talvez sim."
domingo, 30 de junho de 2013
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Momento (CCVIII)
O meu perfume acabou há dois ou três dias. E digo o meu perfume porque uso o mesmo há anos: Dolce & Gabbana Light Blue. É o meu cheiro. Nem vale a pena andar a experimentar muito, porque nenhum me fica tão bem, nenhum tem tanto a ver comigo. E tinha acabado.
Hoje a perfumaria do shopping onde fazemos o nosso almoço "de trabalho" todas as quintas feiras estava com descontos de 40% em todos os artigos (desconfio que aquilo deve estar para fechar). E assim, trouxe para casa por 43 euros o perfume de edição limitada que custava 71.
Já me sinto eu outra vez.
(A minha mãe tem razão, nasci com uma luzinha de sorte que me acompanha - ou na versão do Braza "nasceste com o cu virado para a Lua, e não há quem te enrrabe").
Hoje a perfumaria do shopping onde fazemos o nosso almoço "de trabalho" todas as quintas feiras estava com descontos de 40% em todos os artigos (desconfio que aquilo deve estar para fechar). E assim, trouxe para casa por 43 euros o perfume de edição limitada que custava 71.
Já me sinto eu outra vez.
(A minha mãe tem razão, nasci com uma luzinha de sorte que me acompanha - ou na versão do Braza "nasceste com o cu virado para a Lua, e não há quem te enrrabe").
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Ver crescer (tão depressa...)
No hospital já tinha começado a brincadeira do "dá cá" e ele dava os objectos para a nossa mão.
A semana passada começou a dizer adeus, braço rechonchudo a abanar por todos os lados e um sorriso imenso de quem está a aprender todo um mundo novo.
Hoje recebo um email da ama "olha mama já consigo chegar às cadeiras e desatar as fitas das almofadas".
(O meu orgulho é tão grande quanto o assombro de vê-lo crescer tão depressa...)
A semana passada começou a dizer adeus, braço rechonchudo a abanar por todos os lados e um sorriso imenso de quem está a aprender todo um mundo novo.
Hoje recebo um email da ama "olha mama já consigo chegar às cadeiras e desatar as fitas das almofadas".
(O meu orgulho é tão grande quanto o assombro de vê-lo crescer tão depressa...)
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Mini Me
sábado, 22 de junho de 2013
Momentos (inesperados)
Estávamos nós a preparar-nos para ir ao supermercado buscar almoço quando recebemos um telefonema do B. para irmos fazer um churrasco para o quintal dele. Não pensámos duas vezes. Passámos noites infinitas naquele quintal, conversas até às tantas da manhã, pizzas no forno de pedra de 500 kgs que foi arrastado por uma mota, caracóis, sardinhadas, peixeiradas e milhentos churrascos e outros tantos barris de cerveja e garrafas de vinho. Isto há três namoradas do B. atrás, quando ele ainda nem sonhava em ter os três filhos que agora brincam livres no meio da terra, quando nós ainda não pensávamos em ter filhos nem em tudo o que teríamos de passar para finalmente conseguir concretizar este sonho que agora ri louco de satisfação a andar de baloiço, lindo tão lindo que dói.
E ver-nos agora assim, os mesmos amigos mas com as vidas tão mudadas, deixa-me com um sorriso um pouco nostálgico. Porque há muitos anos atrás, quando trabalhava como empregada de mesa num restaurante para pagar a carta de condução e a faculdade e todos os pequenos luxos que fui querendo desde os 15 anos, lembro-me de ver os grandes grupos de amigos com os seus filhos que iam almoçar juntos ao sábado ou ao domingo, e pensar que um dia queria ser assim. Como me vejo hoje sentada a esta mesa de madeira à sombra, em frente a um prato cheio de salada com pimentos assados e salmão.
Não ficámos o resto da tarde porque tinha combinado ir a um pequeno desfile de moda infantil de uma colega que está agora a lançar-se no mundo dos laçarotes e das camisolas com golas mimosas (é só nestas alturas que penso que, se tivesse uma menina - ou quando tiver uma menina - ía ser uma autêntica barbie nas minhas mãos...). Levei Peter Pan comigo, vestido com uma t-shirt da marca, mas acabou por não desfilar como estava previsto, porque passou o tempo todo a dormir e só acordou com as palmas finais (e assim se perdeu um potencial talento internacional...).
Mas o convite para voltar e jantar estava feito, e depois de dar banho ao pequeno buda, vestir-lhe o pijama e dar-lhe a sopa e a fruta, voltámos para casa deles. Ainda tinha uma réstia de esperança que Peter Pan adormecesse antes de lá chegarmos, mas nada feito. Aguentou-se sentado à mesa connosco até às 10 da noite, a chupar bocadinhos de massa como gente grande, levou uns calduços do pequeno J. antes do L. lhe arregalar os olhos (como que a dizer "eu sei que és pequeno mas ninguém bate no meu filho!!") e acabou por adormecer no meu colo, exausto de um dia agitado e tão diferente da rotina calma que gostamos de cumprir.
E ver-nos agora assim, os mesmos amigos mas com as vidas tão mudadas, deixa-me com um sorriso um pouco nostálgico. Porque há muitos anos atrás, quando trabalhava como empregada de mesa num restaurante para pagar a carta de condução e a faculdade e todos os pequenos luxos que fui querendo desde os 15 anos, lembro-me de ver os grandes grupos de amigos com os seus filhos que iam almoçar juntos ao sábado ou ao domingo, e pensar que um dia queria ser assim. Como me vejo hoje sentada a esta mesa de madeira à sombra, em frente a um prato cheio de salada com pimentos assados e salmão.
Não ficámos o resto da tarde porque tinha combinado ir a um pequeno desfile de moda infantil de uma colega que está agora a lançar-se no mundo dos laçarotes e das camisolas com golas mimosas (é só nestas alturas que penso que, se tivesse uma menina - ou quando tiver uma menina - ía ser uma autêntica barbie nas minhas mãos...). Levei Peter Pan comigo, vestido com uma t-shirt da marca, mas acabou por não desfilar como estava previsto, porque passou o tempo todo a dormir e só acordou com as palmas finais (e assim se perdeu um potencial talento internacional...).
Mas o convite para voltar e jantar estava feito, e depois de dar banho ao pequeno buda, vestir-lhe o pijama e dar-lhe a sopa e a fruta, voltámos para casa deles. Ainda tinha uma réstia de esperança que Peter Pan adormecesse antes de lá chegarmos, mas nada feito. Aguentou-se sentado à mesa connosco até às 10 da noite, a chupar bocadinhos de massa como gente grande, levou uns calduços do pequeno J. antes do L. lhe arregalar os olhos (como que a dizer "eu sei que és pequeno mas ninguém bate no meu filho!!") e acabou por adormecer no meu colo, exausto de um dia agitado e tão diferente da rotina calma que gostamos de cumprir.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
O que eu tenho de ouvir (XVIII)
Comentei com ele que a minha mãe tinha pedido para lhe comprar um euromilhões, por causa do jackpot.
- Darem o euromilhões à tua mãe era o mesmo que darem bombas nucleares ao Vaticano...
- Darem o euromilhões à tua mãe era o mesmo que darem bombas nucleares ao Vaticano...
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Conversas
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Momentos (CCVII)
A minha tarde, a partir do instante em que vou buscar Peter Pan à ama, é dele. Salvo alguma excepção em que tenha de fazer qualquer coisa urgente, vamos para casa, dou-lhe um biberão de leite, sento-me no chão com ele, rodeados de bonecada, e ficamos a brincar até à hora do banho. Encho-o de beijos, de abraços, de cócegas, dou-lhe muito colo e muitas festas, recebo muitos puxões de cabelo e muitas lambidelas na cara. Ele já sabe e atira-se para trás para eu o agarrar e lhe dar beijos na barriga. E ri-se muito. Depois páro e olho para ele séria. Ele devolve-me o olhar sério, para logo de seguida soltar uma risada, como que a pedir mais. E eu dou. Mais beijos, mais abraços, mais cócegas. Todos os dias, aquele tempo é só para ele.
Hoje descobriu que as bolas rolam no chão. E ali ficou de olhos esbugalhados, a empurrar a bola e a soltá-la para a ver a rolar sozinha. (Isto depois de ter estado uns bons minutos a lamber o comando da televisão todo, de baixo para cima, como se fosse um gelado).
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