segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Toda a diferença

Finalmente mandam-me entrar para um vestiário e vestir uma espécie de saca de batatas de pano onde cabiam três de mim, bem arrumadinhas. Ouço a médica a chamar-me da outra porta, e assim que me sento explica-me a situação: a colega dela está de baixa, ela ficou com algumas das doentes da colega e daqui a 10 minutos tem de ir assistir a uma prova oral (esqueço-me que isto também é uma Universidade) "mas garanto-lhe que não sai daqui hoje sem ser examinada!", por isso pede-me para esperar no gabinete.
Uma auxiliar vai buscá-lo ao corredor, para eu não estar ali sozinha, vestida de saco de batatas. É isto que eu continuo a elogiar neste Serviço: a atenção ao bem-estar dos utentes. Há atrasos, claro que sim (estamos em Portugal) mas explicam porquê, pedem desculpa pelo incómodo, preocupam-se se precisamos de alguma coisa. Quem recorre a esta consulta vem à procura de um sonho (que eu vejo concretizado nas fotografias de bebés e mensagens de mães que a médica tem num quadro atrás da secretária), vem cheio de medos e expectativas frustradas e muito ses no pensamento. E chegar aqui e ter alguém (neste caso é todo o pessoal do Serviço) que se preocupe, em vez de nos tratar como um número imbecil que só vem dar trabalho (maravilhosos centros de saúde e maioria dos hospitais públicos) faz toda a diferença.

E aqui estamos nós

Estou na sala de espera há uma hora e meia e começo a irritar-me um pouco. O Dr. House não nos fazia esperar tanto tempo. Mas esta consulta já não será com ele, mas sim com uma médica de aparelho nos dentes (sei porque ela veio à porta buscar as fichas). Esta consulta é mesmo de Infertilidade, o início do processo de Reprodução Medicamente Assistida. É a consulta que o Dr. House disse que não valia a pena marcar se ele não tivesse melhoras. E aqui estamos nós.

domingo, 7 de setembro de 2008

Liberdades

"Hei-de ter um gato, sem ter medo que me chamem bruxa, vou poder dançar sem receio de que me chamem prostituta. Posso passear com o meu cavalo e hei-de ir para onde me aprouver. Hei-de andar por aí a pairar como um gerifalte. Vou viver a minha vida e fazer as coisas de que gosto. Serei uma mulher livre."

Ana de Cléves in Herança Bolena


(e hoje começo a ler "A Princesa Determinada", sobre Catarina de Aragão).

Contrastes...

... entre um sábado de sossego e calma (just for girls), e um domingo de completa agitação e cansaço.
O plano estava traçado e foi cumprido à risca: sábado de manhã pegámos no B. e no P. e arrancámos de novo para o Furadouro, pela última vez (pelo menos este ano), sem os fatos de banho mas com vontade de aproveitar a companhia dos amigos. O P. ía um pouco nervoso por fazer a viagem tão "rasteirinho" (pudera, está habituado ao Frontera) e ainda por cima à pendura. Depois de passar algum tempo a analisar a condução dele, descontraiu.

Depois de um típico rodízio brasileiro num restaurante que o outro B. (mania de terem todos o mesmo nome) e a P. descobriram atrás do sol posto, sabíamos que íamos ficar sozinhas (só com o pequeno D. como companhia, puto que acha que já é grande, mas não deu muito trabalho) até ao dia seguinte. Eles fizeram-se à estrada, direitos a Ponte de Lima, para assistir ao Rainforest Portugal.
Nós fomos assofar até nos doer as costas, cada uma com o seu livro, cada uma a fazer comentários esporádicos, cada uma a saborear o sossego e o silêncio. depois do jantar a vontade de sair não era muita, mas o apelo para ir comer uma tripa foi mais forte. Bem me lixei, a combinação de chocolate com caramelo não me caiu bem, e passei o resto da noite a água com gás (ninguém me manda ter mais olhos que barriga).
Perto das quatro da manhã, depois de três episódios de CSI e de eu ter acabado o meu livro, ligámos para eles a desejar boa noite. Apesar de terem levado sacos-cama, andavam à procura de uma pensão para dormir (eles não admitiram, mas devem ter apanhado tanto frio enquanto viam as provas!!). Uma hora e meia depois aparecem em casa, o tipo da pensão (rasca, muito rasca) pediu-lhes cinquenta euros por quarto, e eles mandaram-no $%#$%#$ no %$. Áquela hora ainda ficaram pela sala a comer percebes e a contar à P. o encontro imediato de terceiro grau com o o Sr. Pimenta. Eu nem me levantei, para que a fama que tenho (que o meu espírito demoníaco se solta violentamente quando me acordam) não fosse comprovada ao vivo e a cores.
Passadas poucas horas estava tudo levantado e pronto para ir palmilhar kilometros para o Porto.

Estacionámos o carro num bairro tão manhoso que a primeira coisa que ele disse quando nos afastámos foi "não tarda nada e as nossas jantes já estão vendidas". Descemos até ao rio, do lado de Gaia, procurámos um bom sítio, dentro do possível, no meio dos milhares de pessoas com bocados de cartão amarelo enfiados nas cabeças, e outras tantas vestidas como se fossem para a missa de domingo (quem é que vai para o RedBull Air Race de saltos altos, ou vestida de Dolce & Gabbana - imitações cof, cof - dos pés à cabeça?).

O B., como sempre, encontrou o spot ideal: Magreb Tea House, com cerveja a cinquenta cêntimos (ao contrário do euro e meio que toda a gente pedia de uma forma vergonhosa por uma garrafa de água de 0.33 cl, do LIDL) e sanduiches de pão pita comidas enquanto víamos as provas num ecrã gigante dentro do bar, sentados em almofadões colocados em cima dos tapetes marroquinos.

Bastava vir à porta para vê-los na manobra do looping (não sei se é o nome correcto, paciência) a uma velocidade tão vertiginosa que mal os conseguíamos fotografar. Mas fora a sensação da velocidade real a que eles andam, e o barulho dos motores, que não se vê na televisão, nada mais é apelativo o suficiente para eu lá voltar para o ano. É como ir ao Moto GP no Estoril: vivi a experiência uma vez, achei engraçado, mas não mais do que isso, e a ideia de repetir não me seduz. Se lá voltar será com um plano mais elaborado que inclua almoço numa sala do primeiro andar com vista para o rio.

(E quando voltámos as jantes ainda lá estavam).

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Ouvir e sentir (XXVI)

India Arie
"The Heart Of The Matter"
(Sex and the City OST)

Devia...

... ter rido mais com ela, ter aproveitado as gargalhadas contagiantes que enchiam aquela sala sem janelas
... ter conversado mais com ela, ter-lhe contado quem sou, do que gosto
... ter aberto o meu coração e ter deixado entrar a sua amizade, que ela me foi oferecendo subtilmente.
Não lhe dei oportunidade de ser minha amiga, só colega de trabalho cheia de vida e de alegria, e hoje que foi o seu último dia naquela sala que partilhámos durante 5 meses, que vai para Praga aproveitar a oportunidade de uma vida, pedi-lhe desculpa por me ter fechado tanto, disse-lhe que tinha pena de não termos mais tempo para nos conhecermos, e desejei-lhe de coração cheio toda a felicidade que ela merece.
Talvez para compensar tudo o que ficou por viver, gravei um CD com as músicas que ouvíamos ali, as músicas preferidas dela, e fiz uma capa com uma dedicatória e com uma foto minha e da R., as nossas caras em grande plano , para ela se lembrar sempre dos momentos que passámos as três.
Talvez um dia lhe dê o endereço do blog, nunca é tarde para cultivar as amizades, e esta merece ser acarinhada.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Desalento

Dói-me a cabeça do esforço de conter as lágrimas. Mais uma amiga grávida. 10 anos mais nova do que eu. Eu até estava bem disposta, deixei umas larachas num blog amigo, fomos ter com a família dele para o jantar de aniversário do A., e assim que nos sentamos à mesa surge o anúncio. Dou os meus parabéns sinceros, com o melhor sorriso possível, mas não pergunto nada, nem de quanto tempo está, nem se foi planeado, nem como soube, nem se está feliz. Passo o resto do jantar como se nada fosse, defesas criadas à força, rio e brinco e vejo-a a pedir a picanha bem passada, a recusar a salada, a ser mimada pela família, com aquelas pequenas brincadeiras dirigidas às grávidas "Se a polícia vos manda parar apanham multa, vão com 6 pessoas no carro". Nem dois copos de Casa de Santar nem o bolo de chocolate com gelado de baunilha me conseguem consolar, mas ninguém nota, ninguém tem de notar, não tenho o direito de estragar o maravilhoso momento que eles estão a viver. Depois do bolo e do champanhe já só quero sair dali, vir embora, mas a conta demora uma eternidade a chegar (o serviço do restaurante foi miserável). Fazemos o caminho de regresso a casa em silêncio, ele ainda me afaga a perna com a mão, mas hoje não quero falar, não quero repetir tudo outra vez, alimentar a tristeza e a revolta.
Hoje sou eu que me afasto para lamber as minhas feridas sozinha.

Linkin Park
"Leave Out All The Rest"